Banda podre da polícia quer a cabeça de coronel; e o bolsonarismo apoia

Comandante afastou 50 policiais depois que 11 foram presos após grupo executar vítima de roubo confundida com bandido; deputada ataca coronel e diz que PMs vivem 'inferno astral'

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 10h04
Atualizado 20 de dezembro de 2021 | 17h27

Caro leitor, 

 

Era 26 de fevereiro de 2021 quando um informante do 1.º Batalhão de Ações Especiais da Polícia (Baep), de Campinas, participou de uma ação dos PMs que terminou na morte de um empresário e na tortura da mulher da vítima. Os policiais procuravam drogas. Suspeitavam que eles fossem traficantes. Diante da confusão que se seguiu, o informante se tornou uma testemunha incômoda. Temendo ser morto, procurou a Corregedoria da PM e fez um acordo de delação premiada. 

Começava assim a investigação do maior escândalo da história da PM na região de Campinas, expondo a banda podre responsável por assassinatos até mesmo de inocentes, confundidos com ladrões. O informante Artur Donizetti Devecchi Junior contou que recebia dinheiro dos policiais para denunciar bandidos a dois batalhões; o 1.º Baep e o 35.º BPM/I. Diz o Ministério Público: "Durante as investigações, descobriu-se que Policiais Militares atuaram de forma organizada, com o intuito de cometerem homicídios, de forma reiterada, de civis supostamente criminosos, simulando confrontos armados". 

Uma das vítimas teve o veículo roubado, foi feita refém por bandidos e obrigada, sob ameaça, a dirigir para os criminosos enquanto praticavam roubos. O motorista de aplicativo Luciano Gomes Calonga, de 26 anos, foi sequestrado por dois ladrões. Os PMs perseguiram seu carro e, após ele bater o veículo, executaram-no com um tiro no peito pensando se tratar de um assaltante. E, depois, plantaram uma arma em suas mãos. Tudo registrado pelas interceptações telefônicas da Corregedoria. Queriam transformar o inocente em bandido e assim "salvar a situação".

Os PMs sabiam quem eram os ladrões. Eles usavam programas para invadir os telefones celulares dos criminosos e, assim, conseguiam localizá-los. Controlavam até as câmeras dos aparelhos celulares, vendo ao vivo o que estava acontecendo para montar armadilhas e matá-los. Diz o Ministério Público:  "(Nas interceptações telefônicas) os policiais comemoravam o resultado de suas ilícitas condutas, se autointitulando como 'assassinos'".

Não só.  Os policiais exigiriam propinas de traficantes, desviaram dinheiro apreendido e transportavam armas frias nos carros para fraudar ocorrências. Ao descobrirem a delação do informante, abordaram Devecchi. O Ministério Público assim descreve o que houve: "Um dos policiais alertou para o fato de ter 'caguetado' os policiais do Baep, afirmando que iria morrer como 'cagueta', na cadeia. O policial disse ao informante que ia 'entregá-lo para os irmão do Partido (PCC)' e que, se o próprio policial não o matasse, os 'irmãos do Partido' iriam matá-lo".

Quando soube do caso, o coronel Renato Nery Machado, do Comando de Policiamento do Interior-2 (Campinas),  ficou indignado. Ele, que assumira o comando em março, reuniu seus oficiais: "Eu entrei na polícia pra ser polícia não pra ser bandido (...) Vou passar a régua nos dois batalhões  (35.º Batalhão e Baep). Vou propor ao subcomandante a movimentação de vários de vocês. (...) Isso aqui não é um grupo de oficiais, é um bando. E se alguém estiver gravando, pode gravar. Manda pra deputado, pra advogado manda pra p... q... p... Isso é um bando; e esse bando criou uma quadrilha". 

Dezesseis PMs foram denunciados pela promotoria militar no dia 15 de dezembro. A lista de acusações é extensa: fraude processual, grampo clandestino, invasão telemática, porte ilegal de arma, peculato, ameaça e formação de bando armado – os homicídios ficaram com a Justiça Comum. Onze dos réus tiveram suas prisões preventivas decretadas pelo juiz Ronaldo João Roth, da Justiça Militar. E o coronel cumpriu sua promessa: afastou 52 policiais dos batalhões. 

A bronca do coronel foi gravada e um vídeo editado e com legendas se tornou alvo de políticos bolsonaristas e de parte da bancada da bala, que, em vez de elogiar o oficial, passou a defender a banda podre e os oficiais dos batalhões. Começava a guerra nas redes sociais. Bolsonaristas chamaram a bronca do coronel de "repugnante", disseram que ele estava "desgraçando a vida dos guerreiros verdadeiros". "Você (Nery) é falso moralista. Quero ver se você é 'bravão' assim com ladrão. Aliás, já matou um ladrãozinho nesses 30 anos de merda de serviço?"

O caso chegou ao plenário da Assembleia Legislativa no dia 16. Foi a deputada estadual Adriana Borgo (Pros), integrante da bancada da bala e apoiadora de Jair Bolsonaro (PL), quem subiu à tribuna para atacar o coronel. "Hoje eu não podia deixar de expressar minha indignação ao coronel Nery, que teve um problema lá na unidade com alguns policiais, que não se sabe quais, uma caguetagem de um sem-vergonha, de um porcaria de um mala (malandro), e começou o inferno astral na vida dos policiais." 

O "mala", o "sem-vergonha", nas palavras da deputada, era o colaborador da Justiça ameaçado de morte pelos PMs que querem entregá-lo ao PCC. E os homens que vivem um "inferno astral", os policiais denunciados pela promotoria com prisão decretada pela Justiça Militar. A deputada não se limitou em pôr a vítima no papel de acusado e vice-versa. "Não seja covarde (coronel) e transfira quem o senhor acha que tem relação com isso. São famílias que o senhor está punindo para dar uma resposta a essa imprensa imunda que nunca fala a verdade." 

Adriana foi mais longe. Ao defender os oficiais afastados porque não fiscalizaram seus subordinados, afirmou: "E digo mais: isso é muito comum em todas as unidades. Qual é o comandante de verdade que foi da rua que não tem um 'p4' guardado? Vai me dizer que a Rota não tem um 'p4', que o Choque não tem? Que os batalhões não têm 'p4'? Pra quem não sabe o que é 'p4', são armamentos apreendidos, que na hora certa são apresentados. É muito comandante atrás de mesinha e não sabe nada de rua. Então quando acontece uma ocorrência vai pro lado da mídia, quer se respaldar para garantir suas estrelas e não presta atenção na polícia. Roupa suja se lava em casa. Vou divulgar o seu áudio (coronel)". 

Para a deputada, que já pediu a Bolsonaro que decretasse intervenção federal em São Paulo contra o governador João Doria (PSDB), todo batalhão da PM guarda armas ilícitas para fraudar ocorrências, e o coronel seria um hipócrita e injusto por cobrar seus subordinados. A reação judicial e na PM foi imediata. "Na Justiça Militar, há várias condenações criminais de policiais militares surpreendidos com armas e ou drogas depositadas nos armários individuais nos quartéis, ou até mesmo transportadas ilegalmente em viaturas policiais", afirmou à coluna o juiz Roth. 

A associação Defenda PM soltou uma nota de repúdio ao pronunciamento da deputada. "É lamentável, mas compreensível que haja candidatos que fazem o diabo para ganhar eleições com ilações e narrativas que destroem reputações, distorcem realidades, ocultam verdades, enganam, difamam, caluniam ou fazem generalizações abjetas", escreveu o presidente da associação, coronel Luiz Gustavo Toaldo Pistori. O coronel sabe o que diz. Este é o segundo caso em que a delinquência fardada flagrada pela Corregedoria da PM e pelo Comando da PM é alvo da defesa de bolsonaristas.

O coronel Nery mostrou à tropa que o "bumbo bate no pé direito". E, se ela espelha o seu comandante, é melhor para a população que esse espelho tenha a voz e o rosto de coronéis como o de Campinas, pois o oficial de um batalhão é responsável por tudo o que acontece em seu quartel. Pelo que sabe e pelo que não sabe. Ele é responsável pela higidez moral e física de seus homens. Ninguém deseja a indolência e a anomia que tornam natural esconder armas e drogas nas unidades da PM para arredondar ocorrências. O que dizer da entrega de colaboradores da Justiça aos "irmãos" do PCC? Matar inocentes e assassinar a reputação da vítima – fazer do motorista de Uber um criminoso – não é um problema de inferno astral. Nem a opção de ser bandido está escrita nas estrelas. 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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