Banco suíço alvo de investigação da Lava Jato anuncia saída de seu fundador

Carlos Esteve afirma à imprensa que mudança estava planejada e não tem relação com processo contra a instituição

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2017 | 14h31

GENEBRA – O banco Heritage anunciou nesta quarta-feira, 6, que seu fundador, Carlos Esteve, deixou suas funções de CEO. O banco, usado por ex-diretores da Petrobrás, foi criado em 1986 em Genebra e será agora comandado por Marcos Esteve, irmão mais novo do fundador. 

O Heritage passou a ser um dos bancos investigados na Suíça por causa de seu papel no auxílio a brasileiros condenados na Operação Lava Jato. Um dos clientes preferenciais do banco era Nestor Cerveró, ex-diretor da estatal. 

Ao jornal suíço, Tribune de Geneve, Esteve afirmou que sua saída estava planejada e que essa mudança estava prevista havia mais de um ano. Ele também disse que sua saída não tem qualquer relação com o processo que existe na Suíça contra seu banco. 

O banco passou a ser um dos principais alvos do escândalo depois que a publicação suíça La Cité revelou, há 15 dias, que a instituição não havia soado o alerta às autoridades sobre movimentações suspeitas de brasileiros dentro da instituição. 

A FINMA, agência reguladora dos bancos suíços, abriu em 2015 mais de 20 processos de investigação contra as instituições locais por causa da Lava Jato. No total, o escândalo no Brasil envolveu 42 bancos, mais de mil contas e US$ 1,1 bilhão. 

A agência, porém, chegou à conclusão de que três bancos tinham violado as regras de lavagem de dinheiro. Em 2016, um informe da FINMA, transmitido às autoridades, revelara a dimensão do envolvimento do Heritage no esquema de corrupção no Brasil. 

Para a Finma, o banco violou “gravemente” as leis de monitoramento e sua obrigação de alertar as autoridades sobre qualquer tipo de suspeita de irregularidade no que se refere à lavagem de dinheiro. Na avaliação da agência, havia suspeita de que o dinheiro depositado nas contas do banco tinha “origem criminosa”. 

No centro do esquema dentro do banco estava a empresa Forbal Investment Inc, fundada em Belize. Seu beneficiário era Cerveró. Ainda em 2015, segundo o jornal La Cité, a Ernst & Young constatou diversas irregularidades no combate à lavagem de dinheiro. 

Em abril de 2016, a FINMA concluiu que o banco “apresentou um déficit organizacional” e que “não dava garantias” de uma atividade correta. O banco ainda falhou em detectar, identificar e denunciar um cliente sob suspeita. O Departamento Federal de Finanças abriu um processo e uma decisão está sendo aguardada no Tribunal Federal Suíço. 

No mês passado, o Estado revelou com exclusividade que, depois de três anos de investigações sobre o emaranhado de contas de brasileiros na Suíça, o Ministério Público de Berna iniciou uma terceira fase do inquérito sobre a Lava Jato e, no Brasil, enviou uma delegação para questionar réus e suspeitos sobre quem eram seus gerentes de contas e banqueiros em Zurique, Genebra ou Lugano. 

Com 4,7 bilhões de francos suíços sob sua administração, o banco Heritage não respondeu ao pedido de esclarecimento da reportagem. 

 

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