Banco aceitou como garantia área suspeita de grilagem

Irmão de Renan hipotecou fazenda cuja posse é questionada na Justiça

Ricardo Brandt, enviado especial, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

O Banco do Nordeste aceitou como garantia para o empréstimo de R$ 5,6 milhões ao deputado federal Olavo Calheiros - dinheiro que ele usou para implantar a fábrica de refrigerantes Conny, em Murici - uma fazenda suspeita de ter sido grilada com ajuda do cartório de imóveis da cidade. Em apenas quatro anos, a Conny Indústria e Comércio de Sucos e Refrigerantes Ltda. foi vendida à Schincariol por R$ 27 milhões.A Fazenda Capoeirão, que - segundo consta de seu registro - foi hipotecada ao banco, está inscrita no Cartório de Registro de Imóveis de Murici, mas seu verdadeiro tamanho e sua posse são questionados judicialmente. As acusações são de que o deputado, irmão do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobrepôs às terras da Capoeirão uma outra fazenda, a São Bernardo, que havia sido arrematada judicialmente pelo técnico agrícola Genival Mendes Melo. Segundo Mendes Melo, a Capoeirão era um anexo da São Bernardo. Esta foi obtida por ele em 2005 após uma disputa trabalhista envolvendo a falida usina Bititinga - que, originalmente, ocupava a maior parte das terras daquela região.Melo tem em mãos uma escritura pública de permuta manuscrita, de 1972, que atesta que no local existem a Fazenda São Bernardo, Limoeiro de Baixo, e seu anexo Capoeirão, com 571 hectares. Olavo também tem em seu nome uma terra de nome Capoeirão, com dados que batem com os da Fazenda São Bernardo, mas que apresentam problemas que foram identificados. Um deles é que o número de registro da Capoeirão no Incra (15.02.008.02125) é o mesmo da Fazenda Bananeiras, que está em nome de Olavo, mas é explorada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).INTERVENÇÃOEssas e outras acusações de fraude no cartório de Murici, envolvendo as terras da família Calheiros, foram encaminhadas à Corregedoria de Justiça do Estado de Alagoas. Na semana passada esta determinou intervenção no cartório e afastou a tabeliã Maria de Lourdes Ferreira Moura, que tem a concessão desde 1973. Ela ficará afastada por 90 dias, prorrogáveis por mais 30, até que se apure se ela fraudava as certidões para legalizar a grilagem de terras na região.Três depoimentos dados ao Ministério Público Federal, e encaminhados à Corregedoria - sendo dois deles de primos do senador Renan -, acusam os irmãos Calheiros de promoverem a grilagem de terras nas cidades de Murici e Flexeiras e de se valerem do cartório como forma de ocultar as irregularidades.Na região, o deputado Olavo tem em seu nome as fazendas Boa Vista, Santo Aleixo, Bananeira e Capoeirão. O senador Renan, entre compras e arrendamentos, tem as fazendas Furquilha, Novo Largo, Alagoas, Santa Rosa, Vale da Serra e ainda explora com o irmão a Fazenda Bananeira . Os irmãos Calheiros dizem ser perseguidos politicamente por inimigos em sua região. O Banco do Nordeste foi procurado, mas, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que não poderia comentar questões referentes a seus clientes.

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