Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bancadas do PT na Câmara e no Senado têm posturas diferentes sobre medidas do ajuste

Deputados e senadores petistas devem apoiar, mesmo a contragosto, as novas medidas do ajuste fiscal, mas por razões distintas: a bancada da Câmara teme piorar ainda mais as crises política e econômica por que passa a presidente Dilma Rousseff, enquanto os

Ricardo Brito e Isadora Peron, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2015 | 18h00

Brasília - As bancadas do PT na Câmara e no Senado têm adotado uma postura diferente sobre o apoio ao pacote de medidas anunciadas pelo governo na segunda-feira, 14, para atingir a meta de superávit primário de 0,7% do PIB no próximo ano. Deputados e senadores petistas devem apoiar, mesmo a contragosto, as novas medidas do ajuste fiscal, mas por razões distintas: a bancada da Câmara teme piorar ainda mais as crises política e econômica por que passa a presidente Dilma Rousseff, enquanto os senadores do partido não se furtam a questionar publicamente as propostas - já há quem diga que votará contra a nova CPMF.

Entre os deputados do PT, há uma avaliação pragmática que tem permeado parte das conversas de bastidor: não dar apoio ao novo ajuste poderá custar, no limite, o mandato de Dilma. Não avalizar as propostas poderá agravar a situação, já que outros partidos da base se sentiriam desobrigados a respaldar novamente medidas impopulares, como aumento de impostos.

Uma rejeição do pacote poderia conflagrar ainda mais o ambiente da Câmara, Casa Legislativa em que se inicia a abertura de um processo de impeachment da presidente. "Antes de pensar no ajuste, temos que pensar no mandato de Dilma", resumiu um parlamentar do PT. "Se nem os deputados do PT apoiam, quem vai apoiar o ajuste?", questionou um influente deputado petista na bancada. "Não vamos fazer de uma marola, um tsunami", completou esse deputado.

Deputados petistas avaliam que, embora defendam mudanças na política econômica do governo e alguns até queiram reservadamente a troca do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o momento é de apoiar as medidas. Mudanças pontuais às propostas, dizem, não estão descartadas, mas não as rejeitar por completo.

Mesmo sem a presença do líder do partido na Câmara, Sibá Machado (AC), que, sob críticas, está em viagem aos Estados Unidos nesta semana decisiva, um influente deputado da bancada observou, em tom de elogio, que até o momento não houve nenhuma crítica pública de integrantes da bancada ao novo ajuste em plenário.

Um dos vice-líderes do partido na Câmara, Afonso Florence (PT-BA), considera que, para a bancada, o ajuste de agora é "menos traumático" do que o anterior, em que as medidas provisórias 664 e 665 endureciam, por exemplo, regras para concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários. "Vamos fechar posição e o partido vai ser fiel", garantiu Florence.

Senado. Entre os senadores petistas, a principal queixa foi a falta de aviso e de discussão sobre as medidas. Pelo menos três dos 13 senadores petistas têm feito e devem fazer críticas públicas contra o pacote: Paulo Paim (RS), Walter Pinheiro (BA) e Lindbergh Farias (RJ). Os demais, apesar de não engrossarem o coro, não escondem o seu descontentamento nem devem fazer uma defesa enfática das propostas apresentadas. Pinheiro é um dos que já declarou votar contra a volta do chamado imposto do cheque, que desta vez deverá bancar o déficit da Previdência Social.

Na segunda-feira, logo após o anúncio do pacote para cobrir o déficit do Orçamento, parte da bancada se reuniu e fez uma avaliação pessimista das soluções encontradas e da situação do governo. Além de avaliarem que seria muito difícil aprovar propostas como a volta da CPMF no Congresso, os petistas relataram desconforto com o tom usado pelos ministros Nelson Barbosa (Planejamento) e Joaquim Levy (Fazenda) durante o pronunciamento. Na avaliação dos parlamentares, Barbosa teria escolhido os servidores públicos como os grandes vilões do País e também não passou despercebido o fato de Levy ter sorrido ao falar que a CPMF iria ter uma duração de quatro anos.

Para os senadores, o governo deveria ter anunciado primeiro a reforma administrativa, isto é, a redução do número de ministérios, e depois os cortes e aumento de impostos. Também acreditam que faltou um ministro da área social para fazer contraponto aos representantes da equipe econômica na hora do anúncio das medidas. Segundo eles, o Palácio do Planalto não conseguiu deixar clara a mensagem que, apesar dos cortes bilionários, os principais programas sociais foram preservados. 

Uma decisão já tomada pelos senadores da bancada é apresentar uma pauta legislativa nos próximos dias que deixe claro outros caminhos para o ajuste fiscal e mostrar que o partido tem propostas distintas do que o governo está fazendo. Mas, ainda assim, a bancada do PT do Senado deve apoiar o ajuste durante as votações. "Há um grande desânimo da bancada", disse um senador petista, crítico da política econômica. "O caminho é ruim, mas as opções também são ruins", completou. 

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