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Balbúrdia cultural

Áreas da Educação e Cultura no governo Bolsonaro viram palco de guerrilha olavista

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 03h00

Há um ano, aconteceu em Foz do Iguaçu a 1ª Cúpula Conservadora das Américas, promovida na esteira da vitória de Jair Bolsonaro e que reuniu os principais expoentes do conservadorismo brasileiro e do continente. Ali os irmãos Weintraub fizeram uma palestra em dupla em que ensinavam como vencer o marxismo cultural nas universidades.

O caminho, ensinavam, era ser mais engraçado que o comunista. “O comunista te xinga de fascista, racista, e você fica se defendendo. Quando um comunista ou um socialista te xinga você xinga de volta, como ensinou o professor Olavo”, palestrava Arthur. Abraham emendava: “Como a gente ganha? Não sendo chato. A gente tem de ser mais engraçado que os comunistas. Como você ganha a juventude? Com humor e inteligência”. 

Foi assim, com um esquete pseudo-humorístico, que os irmãos Weintraub foram abrindo espaço no bolsolavismo. Abraham e Arthur haviam se aproximado de Bolsonaro por intermédio do então deputado Onyx Lorenzoni. Naquele evento seminal, os dois propunham “aplicar a teoria do Olavo de Carvalho para lidar com o marxismo cultural”. Viriam a ocupar assessorias no Planalto e o primeiro, meses depois, substituiria Ricardo Vélez Rodriguez no Ministério da Educação.

Ele levou a própria palestra ao pé da letra. Estrelou paródias musicais, distribuiu chocolates em lives, tirou a camisa para mostrar uma cicatriz que explicaria seu fraco desempenho acadêmico, xingou muito no Twitter e levou a guerrilha ideológica à condição de política educacional. O MEC, uma das pastas mais importantes da Esplanada, assiste, desde janeiro, a uma paralisia já constatada em dados por meio de um relatório de uma comissão especial da Câmara. 

O Brasil perdeu o ano na Educação em 2019. E agora, de recuperação, assiste à fritura do ministro, vejam só, pelos próprios olavetes. Provavelmente os irmãos Weintraub não contavam com essa ao traçar sua estratégia de sobrevivência ao comunismo.

O fogo amigo se tornou público no fim de semana. Pupilos do autoproclamado filósofo passaram a fritar o ministro nas redes sociais. Ele foi chamado de “Weintrouble”, um trocadilho de seu nome com a palavra em inglês que significa “problema”, por uma página da internet ligada ao assessor presidencial Filipe G. Martins.

A origem da artilharia explica por que Jair Bolsonaro não praticou um de seus esportes favoritos, desmentir a imprensa, no noticiário que aponta que o ministro está pela bola sete. 

A nota triste é que Weintraub não está para cair por conta da balbúrdia – para usar uma palavra que ele próprio notabilizou ao se referir ao que, segundo ele, ocorre nas universidades federais – na pasta, mas porque o aparelhamento do MEC não foi total e irrestrito, como desejam os olavetes.

O estopim para queimar seu filme com os seguidores do guru foi o anúncio de extinção da TV Escola, mantida pela pasta, que acabara de fechar acordo para a exibição de uma série documental (sic) do projeto Brasil Paralelo sobre História do Brasil, contada segundo Olavo e outros expoentes do conservadorismo.

Não é só no MEC que a sanha de dominação olavista galopa neste fim do primeiro ano de Bolsonaro. A Cultura está completamente aparelhada por pessoas que exibem como currículo o fanatismo ao guru e uma série de teorias tão toscas quanto a dos irmãos Weintraub.

Ao apostar na balbúrdia cultural, Bolsonaro mostra que, nesta área como em outras, aplica no governo, com sinal trocado, aquilo que condenava no PT antes de eleito. Com uma agravante: nos governos petistas o revanchismo, a perseguição aos inimigos, a censura das visões contrárias e o direcionamento de recursos públicos para propaganda ideológica nunca atingiram os níveis vistos agora.

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