Antonio Augusto/TSE
Antonio Augusto/TSE

Baixa renovação nos partidos afasta jovens das urnas

Para reverter quadro, especialistas defendem cursos de formação dentro das legendas e o ensino de conceitos políticos nas escolas

Gustavo Côrtes e Davi Medeiros, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2022 | 05h00

Movimentos de renovação política como o Acredito investem na interação com jovens para tentar engajá-los nas agendas defendidas pelo grupo. Na avaliação desses coletivos, a falta de identidade ideológica dos partidos inibe a participação do segmento no processo político e eleitoral. 

Segundo o coordenador de mobilização do Acredito, Iuri Belmino, a atuação da organização, às margens da institucionalidade político-partidária, atrai jovens insatisfeitos com as siglas. Os motivos, afirmou Belmino, são os escândalos de corrupção, a falta de democracia interna e a manutenção de velhos caciques nas posições de comando.

“Isso tudo causa repulsa nos jovens. Movimentos da sociedade civil com mensagens mais modernas e táticas de comunicação mais rápida na internet preenchem esse vácuo”, observou Belmino.

Esse entendimento é compartilhado pelo paulista Loretto Casoti, que completa 16 anos em maio e espera ansioso para tirar seu título de eleitor e votar em outubro. Casoti contou que ele e os amigos são politicamente engajados e debatem o tema na escola e em atividades de lazer. No entanto, afirmou que entende o desinteresse de jovens de sua idade pelo assunto, o que pode ser atribuído, segundo ele, à incapacidade dos partidos de se comunicar por meio de outras linguagens, como a das redes sociais. “Seria interessante ver propagandas políticas que explorassem mais o Twitter e aproveitassem assuntos presentes no cotidiano dos jovens.”

O coordenador do Acredito destacou, ainda, que a falta de políticos mais jovens nos quais os adolescentes possam se espelhar é um fator de afastamento das urnas. Integrante do Acredito, a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) é, atualmente, o principal “imã político” do grupo. A parlamentar foi criada na periferia de São Paulo. Estudou em Harvard, em Boston. Teve bolsa integral oferecida pela própria instituição de ensino. Lá, se formou em Ciência Política e se especializou em astrofísica. “Ela é a grande inspiração da maioria dos jovens que se encanta pela nossa proposta. A história de vida dela ressoa em muitas pessoas”, disse o coordenador do Acredito.

Para Belmino, também é fundamental para atrair os jovens a inclusão de “conteúdos transversais”, que ensinem fundamentos políticos nas escolas. “Não podemos esperar que essa formação venha de casa, porque a maior parte das famílias sofre com problemas muito mais urgentes.”

Na avaliação do cientista político da USP José Álvaro Moisés, a retomada do cadastramento eleitoral dos jovens requer das instituições um esforço. Esse trabalho, segundo ele, deveria incluir a realização de cursos de formação dentro dos partidos e o fortalecimento do ensino de conceitos políticos e do funcionamento de cada um dos três Poderes da República na escola. 

“Desenvolver a economia, gerar mais empregos, criar possibilidades de formação nas universidades. Todas essas questões dependem da política. É preciso explicar que os direitos que interessam aos jovens estão ligados, em última análise, ao funcionamento da política. Não existe saída fora dela”, afirmou Moisés. O professor observou que os mais novos associam a política à subordinação ao governo e às leis, e não ao exercício da cidadania. 

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