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‘Avise ao PR que está rolando um esquema de corrupção na aquisição da vacina’, diz deputado

Luis Miranda troca mensagens sobre irregularidades na compra de Covaxin com ajudante de ordem de Jair Bolsonaro; leia conversa

Camila Turtelli e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 16h45
Atualizado 24 de junho de 2021 | 10h43

BRASÍLIA – Em troca de mensagens no WhatsApp com assessor do presidente Jair Bolsonaro em que denunciou irregularidade na compra de vacinas para covid-19, o deputado Luis Miranda (DEM-DF) afirmou que estava “rolando esquema de corrupção pesado” no Ministério da Saúde. “Tenho as provas e as testemunhas”, escreve Miranda em uma das mensagens as quais o Estadão/Broadcast (leia abaixo) teve acesso. 

O aviso foi enviado às 12h54 do dia 20 de março ao número de celular de um ajudante de ordem do presidente. Como resposta, o auxiliar de Bolsonaro responde com uma bandeira do Brasil. Uma hora depois, Miranda insiste: “Não esquece de avisar o PR (presidente). Depois não quero ninguém dizendo que eu implodi a república. Já tem PF e o c... no caso. Ele precisa saber e se antecipar”. A resposta é outra bandeira do Brasil.

Às 16h, Miranda informa ao auxiliar do presidente que estava “a caminho”. No mesmo dia, Bolsonaro recebeu o deputado no Palácio da Alvorada. O encontro foi registrado nas redes sociais por Miranda, que na ocasião disse ter ido tratar de combustíveis e vacinas.

Passados dois dias, o deputado voltou a procurar o auxiliar. “Pelo amor de Deus... isso é muito sério!”, escreveu Miranda no dia 22. Sem resposta, ele insiste no dia seguinte.“Bom dia irmão, o PR está chateado comigo? Algo que fiz?”. O auxiliar do presidente responde: “Negativo, deputado. São muitas demandas. Vou relembrá-lo”.

Também pelo aplicativo de mensagens, Miranda envia ao ajudante de ordem uma fatura de compra em nome da empresa Madison Biotech PTE LTDA. O documento, segundo afirmou o deputado ao Estadão, era uma fatura no valor de US$ 45 milhões referente a importação da vacina indiana Covaxin. O pagamento, porém, dependia da assinatura de seu irmão, Luis Ricardo Fernandes Miranda, que é chefe do Departamento de Logística do Ministério da Saúde. O parlamentar afirmou que seu irmão se recusou a assinar, pois a área técnica da pasta considerou indevido o pagamento antecipado.

O Ministério da Saúde assinou um contrato para a aquisição de 20 milhões de doses da Covaxin no dia 25 de fevereiro. Como revelou o Estadão, o valor que a pasta aceitou pagar pelo imunizante (US$ 15 por dose) é 1.000% mais alto do que a própria fabricante, o laboratório Bharat Biotech, estimou seis meses antes (US$ 1,34).

Diferentemente dos demais imunizantes, negociados diretamente com seus fabricantes (no País ou no exterior), a compra da Covaxin pelo Brasil foi intermediada pela Precisa Medicamentos. A empresa virou alvo da CPI da Covid, que na semana passada autorizou a quebra dos sigilos telefônico, telemático, fiscal e bancário de um de seus sócios, Francisco Maximiano. O depoimento do empresário na comissão estava marcado para hoje, mas ele alegou estar em quarentena após voltar da Índia e não compareceu.

O Ministério Público Federal (MPF), que investiga suspeitas envolvendo a compra da Covaxin, afirmou ver indícios de crime e “interesses divorciados do interesse público” na contratação.  A procuradora da República Luciana Loureiro Oliveira, do Distrito Federal, decidiu enviar parte da apuração para a área criminal do MPF.

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