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Avenida de oportunidades

Saída dos EUA do TPP é boa para o Brasil, mas protecionismo de Trump é péssimo para o mundo

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2017 | 03h00

O mundo, aí incluído o Brasil, está em polvorosa com a posse do indescritível Donald Trump, suas nomeações e primeiras decisões, como tirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífico (TPP), mas aqui vai uma inconfidência: o virtual fim do TPP pode ser péssimo para os países envolvidos, mas é uma notícia alvissareira para o Brasil, que era carta fora do baralho e pode voltar ao jogo.

Como me disse ontem um importante embaixador, a decisão de Trump “pode parecer mais uma maluquice, mas repercute favoravelmente para nós, porque o Brasil estava pessimamente posicionado e agora ganha uma nova oportunidade nas negociações comerciais”.

Nos anos do PT, marcados por trocas de farpas e até desaforos com Washington (não raro com boas razões...), o Brasil foi sendo excluído do tabuleiro comercial dos EUA e está muito atrasado. Com a canetada de Trump contra o TPP, as cartas estão sendo novamente embaralhadas, abrindo uma boa chance para o Brasil recuperar o tempo perdido.

O governo Lula foi decisivo para enterrar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e, ato contínuo, para impedir que os vizinhos fizessem acordos bilaterais com os EUA que, por exemplo, seriam ótimos para o Uruguai, produtor de carne de qualidade. Em vez de Alca e acordos diretos, Brasília apostou nas negociações multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC). Resultado: o Brasil ficou a ver navios, sem a Alca, sem as opções bilaterais e sem a Rodada Doha da OMC, nunca concluída.

Enquanto o Brasil se pendurava no Mercosul, ia sendo atropelado pela Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México, Peru e Costa Rica) e pelo TPP, entre EUA, México, Canadá, Japão, Brunei, Malásia, Cingapura, Vietnã, Austrália, Nova Zelândia, Peru e Chile. Note-se que o TPP isolou não só Brasil, mas todos os Brics: Rússia, Índia, África do Sul e até a China, que nos anos do PT ultrapassou os EUA como principal parceiro comercial brasileiro. As motivações de Trump para embaralhar essas cartas não são nada nobres, pois piscam xenofobia e antiglobalização, mas o Brasil quer fazer desse limão uma limonada.

Logo ao assumir, o chanceler José Serra deu declarações nada diplomáticas ao Estado sobre as chances de vitória de Trump: “Prefiro não acreditar nessa hipótese...”. Michel Temer não gostou, mas a campanha de Trump dedicou à provocação o mesmo desprezo com que tratou o próprio Brasil e “ninguém lembra mais”. O que o Itamaraty prefere lembrar é que o esvaziamento do TPP fortalece a carne brasileira no Japão e que, quando o Brexit foi aprovado, Serra rapidamente colocou o Brasil à disposição de Londres para conversações bilaterais e, hoje, tenta articular negociações tripartites com EUA e Reino Unido. “Impossível não é”, diz o embaixador. 

Nem o governo, PSDB ou PT, ninguém defendia ou imaginava a eleição de Trump, mas, já que ele está lá, é hora de resgatar o “pragmatismo responsável” e desbravar a avenida de oportunidades. O que não parece bom para o TPP pode ser bom para o Brasil. Já quem parece estar no pior dos mundos é o México, que fica no limbo com a saída dos EUA do TPP e pode cair no inferno se Trump também rever o Nafta, entre EUA, Canadá e México. A conclusão do embaixador ouvido pela coluna é irônica e malvada, mas verdadeira: “O México vai ter de se lembrar urgentemente que é latino-americano”. 

Assim, o México vai despencar de sua excessiva dependência dos EUA e o Brasil está na posição contrária, de escalar as oportunidades que se abrem com o esvaziamento do TPP, mas, atenção!, se a decisão de Trump apontar para uma escalada protecionista da maior potência, será um retrocesso de grandes proporções. Nenhum país lucra, o Brasil tampouco lucraria.

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