Avanço da coca na Amazônia preocupa ONU

Temor é que traficantes comecem a usar a região não apenas como rota da droga, mas para sua produção

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2008 | 00h00

A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma estar "muito preocupada" com as informações da Fundação Nacional do Índio (Funai) sobre o avanço da cocaína em tribos indígenas na região amazonense do Alto Solimões. Segundo a ONU, o fato deve servir como um sinal para que a fiscalização na região seja reforçada.O temor das Nações Unidas é que os traficantes estejam começando a usar a Amazônia brasileira não apenas para o tráfico de drogas, mas também para sua produção, "exportando" o modelo já usado na Colômbia. Recentemente, o Exército confirmou ter encontrado plantações de coca na região de Tabatinga (AM). A produção representa pouco em relação à cocaína que passa pelo Brasil, mas os militares sinalizam para a necessidade de se reforçar a fiscalização na região. "Isso é muito preocupante", afirmou o representante do escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crimes (UNODC) para a América do Sul, Giovanni Quaglia. "Existe a coca nativa, usada tradicionalmente pelos indígenas há milênios. Mas não cultivada com a finalidade do comércio", explicou Quaglia. "Os 7 mil pés de coca encontrados são um sinal de que o governo precisa ficar atento sobre o que está ocorrendo para evitar que esse volume aumente. A realidade é que o potencial de cultivo na região é enorme", alertou ele. O que mais preocupa a Organização das Nações Unidas é que os traficantes colombianos consigam fazer no Brasil o mesmo que em territórios vizinhos. Na Colômbia, Bolívia e Peru, freqüentemente traficantes têm apoio de pequenos agricultores para plantar coca e vender a produção a eles. "A população rural é recrutada para a plantação, principalmente aqueles que não encontram trabalho", explicou Quaglia. Em termos de condições naturais, a ONU destaca que seria "absolutamente possível" produzir coca no lado brasileiro da Amazônia. "As condições ambientais são iguais no Brasil, Colômbia e Bolívia. Não é verdade que a coca cresce apenas em certas altitudes mais elevadas", disse Quaglia. Uma das técnicas usadas pelos traficantes nos países andinos é aproveitar as reservas naturais para cultivar a droga. "Como os governos não podem desmatar essas regiões, os traficantes as usam e plantam entre as árvores de grande porte. Portanto, não é porque há uma reserva ecológica que o controle não deva ser feito", alertou o representante da ONU.

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