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Autoritarismo midiático

O que Wyllys e Holiday têm em comum além de serem famosos? São autoritários

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2017 | 03h00

Dois personagens de campos opostos no espectro ideológico, mas com características bastante semelhantes tanto no modo como se projetaram politicamente quanto na forma com que usam a comunicação direta para se manter em evidência, deram na semana que passou demonstrações de que o autoritarismo não é atributo exclusivo nem da direita nem da esquerda, nem da chamada velha política.

Existe, e é cada vez mais pernicioso, por se travestir de suposta modernidade, um autoritarismo midiático, alimentado pelas redes sociais – e que delas se retroalimenta. Trata-se da versão política da modernidade líquida de Zygmunt Bauman.

O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) e o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM-SP) certamente detestarão ser alinhados na mesma prática e ter suas atitudes “parlamentares” comparadas. Isso também é reflexo da forma autoritária com que enxergam seu papel na política e na sociedade, e da falta de tolerância com os adversários.

Punido com uma advertência por ter cuspido na cara de Jair Bolsonaro (PSC-RJ) na sessão de votação da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff, no ano passado, Wyllys disse, com arrogância, que faria de novo, e que a cusparada foi a única redenção que alcançou num dia triste.

Afinal, segundo sua lógica, Bolsonaro é um “fascista” que o oprime, e mereceu a agressão. Arrogância, autoritarismo e comportamento fascistoide igualam agressor e agredido, neste caso. Wyllys achar que sua atitude pode ser validada por ele ser de esquerda, homossexual ou pelo comportamento de Bolsonaro mostra sua versão distorcida do que são democracia, decoro parlamentar ou mesmo educação mais rudimentar.

O mesmo vale para o jovem Holiday. Recém-empossado vereador após grande votação por ter se projetado no Movimento Brasil Livre (MBL) nas manifestações a partir de 2014, Holiday gravou vídeos em que dizia ter ido fazer visitas surpresas a escolas para verificar se professores estariam fazendo “doutrinação porca” de alunos na rede municipal.

Diante de reações contrárias à prática, fez outros vídeos e posts em suas redes sociais e nas do MBL para pedir inclusive denúncias da prática e reafirmou que continuará com as blitze. Não é papel de um vereador vistoriar conteúdo curricular de escolas nem endossar as condutas em sala de aula. Mais: Holiday não tem nem autoridade nem conhecimento técnico para isso. Ele parte de uma ideologia, a da Escola sem Partido, para atacar suposta doutrinação ideológica, o que é além de tudo incoerente e infantil.

O que mais Wyllys e Holiday têm em comum além de serem autoritários? Ambos se projetaram por serem “famosos” – o primeiro como ex-participante do Big Brother Brasil e o segundo nos carros de som do MBL – e fazem de seu mandato uma espécie de BBB político, com superexposição nas redes sociais. Além disso, usam o topete e a marra no trato com adversários como se fossem sinônimo de coragem cívica e arrojo. Não são, a não ser no tal mundo líquido.

Maturidade não depende de idade, como se vê no comportamento do cuspidor convicto do PSOL. Então não há garantia de que, ao avançar para além de seus 20 anos, Holiday amadureça. Também não há sinais de que ambos estejam minimamente dispostos a admitir erros ou excessos. Ao contrário: quem os aponta é imediatamente candidato a uma cusparada ou à desqualificação nas redes. Ou ambos.

A democracia avança à medida que homens públicos entendem seu papel e o representam bem. Substituir corruptos pegos pela Lava Jato, fascistas preconceituosos como Bolsonaro e representantes do velho coronelismo por jovens estrelas midiáticas embevecidas com seu sucesso virtual não parece ser o melhor caminho para isso.

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