Dominique Charriau/Getty Images
Dominique Charriau/Getty Images

Autor de texto que deturpou declaração de repórter afirma não ter ‘conta a prestar’

O cineasta de origem belgo-marroquina Jawad Rhalib se apresenta como jornalista independente e reclama de ‘ditadura da esquerda’

Marcelo Godoy, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 05h00

BRUXELAS - O cineasta Jawad Rhalib, de 53 anos, afirma não ser “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. O homem que deturpou declarações da repórter Constança Rezende, do Estado, para acusá-la falsamente de querer arruinar o presidente Jair Bolsonaro resolveu atacar o que chama de “esquerda” em sua primeira entrevista desde que pôs em seu blog o texto que deu origem à publicação no site bolsonarista Terça Livre. Esta acabou utilizada pelo presidente para atacar a imprensa em razão das investigações contra seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

Dizendo-se “um jornalista independente e sem nenhuma conta a prestar a ninguém”, Rhalib negou ter relações com partidos políticos ou com políticos. E afirmou: “Quando fazia trabalhos abordando questões da esquerda, a direita jamais me atacou. Mas quando eu trato de um tema da direita, aí tudo é uma tempestade. É o que eu chamo de ‘ditadura da esquerda’.” Rhalib não especificou o que ou quem seriam os integrantes dessa esquerda.

O homem que procura se colocar como vítima do que chama de esquerda publicou seu texto Para onde vai a imprensa? no site de informações francês Mediapart, em 6 de março. Com apenas 20 seguidores, o blog de Rhalib foi encontrado e serviu de base para um artigo em defesa de Bolsonaro no jornal ligado à alt-right americana Washington Times, controlado pela Igreja da Unificação, fundada pelo reverendo Moon. Dois dias depois, o mesmo texto com a notícia falsa foi retomado pelo Terça Livre.

Durante a semana, o diretor do Mediapart, o jornalista Edwy Plenel, não só chamou o texto de Rhalib de mentiroso, como afirmou que o cineasta baseou-se em “conclusões erradas e traduções incorretas”. Em razão disso, o Mediapart retirou do ar o texto de Rhalib por concluir que ele trazia uma notícia falsa, o que desrespeitava as regras do site.

O Estado entrevistou Rhalib em Bruxelas, quando o cineasta de origem belgo-marroquina se preparava para viajar para o Canadá. Amanhã, ele vai apresentar seu documentário No tempo em que os árabes dançavam no Festival Internacional de Filmes de Arte, em Quebec. A semana começou para ele com dezenas de telefonemas para seu apartamento, na Rua de Molenbeek, no bairro homônimo de Bruxelas.

Ali, o cineasta mora no quarto andar de um dos quatro blocos de prédios do condomínio quase ao lado do porto fluvial da capital belga, no Rio Senne. O bairro, que ficou conhecido por abrigar árabes ligados ao extremismo salafista, passa nos últimos dois anos por obras por todos os lados, nas quais os antigos galpões industriais dão lugar a novos prédios de apartamentos.

“Não temos mais sossego. Até de madrugada o telefone toca. Não consigo dormir”, disse Christine Migeotte, a diretora da R&R Productions, a empresa da qual Rhalib é sócio. O outro sócio da produtora é o publicitário Nourdin Rhaleb, CEO da agência VMLY&R, no Marrocos, que detém as contas de diversas empresas multinacionais.

Funções. O Estado procurou Rhaleb para saber quais suas funções na produtora e se a agência que ele dirige no Marrocos tem participação editorial ou financeira nos projetos da R&R Productions, mas não obteve resposta. “Jawad Rhalib é um conhecido cineasta e ele, antes, é um homem de esquerda. Não tem nenhuma relação com a extrema direita”, disse Christine. “Ele deu essa opinião (o artigo em que distorceu as declarações de Constança) na internet e daí foi essa tempestade midiática.”

No bairro em que mora, Rhalib é um homem conhecido – ele vive há cerca de cinco anos no mesmo apartamento. Foi somente depois de o Estado contatar Christine e o sócio do cineasta que Rhalib decidiu responder por escrito às perguntas do jornal. Antes, porém, Christine chegou a ameaçar a reportagem no meio da rua. “Se você continuar batendo em cada porta do bairro, nós vamos acionar nossos advogados para processá-lo.” 

Nascido em Meknès, no Marrocos, Rhalib se formou em comunicação na Universidade Louvain-La-Neuve, que tem o francês como língua de ensino. “Não sei porque esse cineasta, que nunca trabalhou sobre o Brasil, e que trabalhou apenas sobre o mundo árabe muçulmano e a região do Magreb, de repente postou essa manipulação em seu blog no Mediapart”, afirmou o jornalista Edwy Plenel à Radio France Internacional.

Rhalib também se diz iluminado por um livro de três autores franceses – dois deles são antigos oficiais da área de informações, formados pela Escola de Guerra Econômica, em Paris. Trata-se de As redes de Soros para a conquista da África, que acusa o milionário George Soros de usar organizações não governamentais, como a Human Rights Watch, para derrubar governos africanos e assim dominar a riqueza dessas nações. 

A mãe de Rhalib era uma dançarina no Marrocos e serviu de inspiração para seu documentário a respeito do preconceito contra a dança que se espraiou entre os árabes do Magreb ao Nilo. Rhalib disse que não esperava que seu blog pudesse despertar a “tempestade” que se seguiu à sua publicação sobre a imprensa e Bolsonaro. E afirmou que pretende produzir um documentário sobre a mídia. “O caso Bolsonaro não é o tema do meu documentário investigativo, mas sim o tratamento da informação pelos jornalistas.”

O cineasta se negou a fornecer ao Estado a cópia completa da entrevista de Constança Rezende ao seu “colaborador”, que ele identificou como um estudante da Universidade do Texas. “Vou guardá-la para meu documentário.” Ele reafirmou que a imprensa quer “arruinar” Bolsonaro e diz que isso pode ocorrer com outros presidentes, inclusive aqueles “de esquerda”. 

Ao justificar como seu blog foi encontrado em pouco tempo pela direita americana, iniciando o processo que levou ao tuíte de Bolsonaro, Rhalib comparou seu post a um filme. “Depois de fazer um filme, ele não mais lhe pertence. Você sabe bem disso. Infelizmente, nós não temos mais nenhum controle sobre isso, todo mundo pode usá-lo como bem entende. Esse foi o caso”, afirmou.

ENTREVISTA: Jawad Rhalib

'Eu sou livre para tratar os temas que me tocam'

O cineasta Jawad Rhalib se diz vítima de uma “guerra da esquerda”. O homem que publicou o post que serviu para o presidente Jair Bolsonaro atacar a esquerda, distorcendo declarações da jornalista Constança Rezende, respondeu às perguntas do Estado depois que a reportagem bateu em sua porta, em Bruxelas, na Bélgica. Ele se negou a divulgar a gravação completa da entrevista de Constança, negou ainda ter relação com partidos políticos ou com políticos. Leia aqui a íntegra de sua entrevista, a qual ele concordou em dar por escrito.

O senhor esperava essa tempestade midiática quando escreveu seu post?

Eu não queria dar entrevistas, pois já respondi tudo pelo meu blog. Todo o meu trabalho é destinado ao meu documentário investigativo. Eu vou, entretanto responder às suas questões. Não, eu não esperava essa tempestade midiática.

O senhor tem a intenção de fazer um documentário sobre a imprensa?

Sim, nós trabalhamos atualmente em um documentário investigativo sobre a imprensa de todas as tendências políticas em vários países (o site de sua produtora, a R&R Productions, no entanto, não lista este projeto como os que estão em andamento na produtora de Rhalib).

Se o senhor tem essa intenção, em qual medida o caso de Jair Bolsonaro pode ser útil para demonstrar a maneira como a imprensa trabalha?

O caso “Bolsonaro” não é o tema de documentário investigativo. É antes “o tratamento da informação pelos jornalistas” e o Brasil é apenas um entre outros países.

O senhor diz que é jornalista. O diretor de Mediapart, Edwy Plenel, disse à Rádio França Internacional que o senhor não é jornalista do ponto de vista da deontologia profissional. Ele disse que o senhor mentiu e distorceu o que a jornalista Constança Rezende disse ao seu colaborador. O senhor também não corrigiu isso. Ao contrário, o senhor reafirmou a mentira uma vez mais. Eu lhe pedi o texto completo da entrevista de Constança Rezende e o senhor não me deu o texto. Por que o senhor não publicou a gravação completa da entrevista de Constança?

Do ponto de vista do senhor Edwy Plenel, isso é apenas sua opinião. Ele não detém a verdade absoluta, e qualificar o que fiz de “mentira” é apenas a opinião pessoal dele e a sua. Ele igualmente afirmou que eu não sou jornalista, o que é totalmente falso. Em relação ao texto completo da entrevista, eu não tenho nenhuma obrigação de entregá-lo. Você é jornalista e sabe muito bem o que quer dizer “exclusividade da informação”. Esse é um trabalho de grande fôlego e eu não vou dividi-la com você, vou guardá-la para  meu documentário.

A história que o senhor contou não está nas gravações. Trata-se antes de uma falsa representação do que foi gravado. Por que o senhor pensa que a imprensa quer arruinar Bolsonaro?

Eu não falo de toda a imprensa, mas de um exemplo simples sobre o tratamento da informação. Isso acontece com o senhor Bolsonaro, mas também poderia ser com um outro presidente, por exemplo, de esquerda, um jogador de futebol, um artista...

O fato verdadeiramente curioso é que um blog que conta com cerca de 20 leitores decida fazer uma investigação sobre as pretensas manipulações da mídia no Brasil e que ele seja encontrado ‘por acaso’ em poucas horas por um jornal alt-right em Washington e, depois, por Bolsonaro. Como o senhor explica essa coincidência?

Meu trabalho é seguido em outras redes sociais e nos maiores festivais do mundo. Quando a gente faz um filme ou quando a gente escreve um jornal, ele não mais nos pertence; você sabe bem disso, infelizmente nós não temos mais nenhum controle sobre isso, todo  mundo pode usá-lo como bem entende. Esse foi o caso. Acontece que outros jornalistas trabalham sobre os mesmos temas  e é necessários que eu publique meu trabalho primeiro, você deve conhecer bem isso, não?

O senhor tem uma filmografia ligada aos temas da esquerda. Mas o senhor escreve coisas em seu blog que são antes ligadas a temas da direita, como no post sobre George Soros. Então, o senhor pensa como o filósofo Slavoy Zizek para quem era melhor a vitória de Donald Trump do que Hillary Clinton, por razões que são conhecidas por todos (seria mais fácil derrubar o sistema com Trump do que com Hillary)?

Eu não sou de esquerda, nem de direita, nem de centro. Eu sou livre para tratar os temas que me tocam. Eu não devo satisfação a ninguém. Eu não sou fã de nenhum homem político, de nenhum partido. Eu sou um jornalista independente. Quando eu faço um trabalho sobre questões de esquerda, a direita jamais me atacou, mas quando eu trato de um tema de direita, daí é uma tempestade. É o que eu chamo de “ditadura da esquerda”.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.