Audiência tenta esclarecer problemas de refugiados afegãos no Brasil

O polêmico assentamento de afegãos em Porto Alegre levou o procurador da República no Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Weber, a convocar uma audiência com todas as partes envolvidas para esclarecer, nesta quinta-feira, os motivos que têm levado as cinco famílias, vindas de campos de refugiados na Índia e no Irã, a reclamarem tanto das condições que encontraram no Brasil.Em recente carta enviada à Assembléia Legislativa gaúcha, ao Ministério da Justiça e ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), os afegãos, que chegaram ao Brasil no final de abril, dizem que não têm emprego, tradutores e eletrodomésticos e pedem um auxílio mensal maior que os R$ 520 que recebem.A carta solicita ainda que a ONU considere a possibilidade de transferir os 11 adultos e 14 jovens e crianças para outro país caso o Brasil ache difícil atender aos pedidos.No meio da pressão feita pelos refugiados está a Central de Orientação e Aconselhamento (Cenoe), a ONG responsável pelo assentamento, que recebe as verbas do Acnur e faz o pagamento de algumas despesas e das bolsas de R$ 260 por adulto. A psicóloga Cristiane Queiróz Rosa, responsável pelo atendimento às famílias, reconhece que algumas pessoas estão deprimidas com a situação, mas considera que as queixas fazem parte do processo de adaptação a uma cultura muito diferente. "A maior preocupação deles é a falta de trabalho", revela. Apenas as mulheres Fareba Nabizada e Roqia Atbai conseguiram empregos em institutos de beleza. Entre os homens, o motorista Farhad Khazizadah passou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais numa escola e o jovem Vali Faghiri restaura tapetes em casa.O maior problema foi a expectativa salarial. Os afegãos acreditavam que ganhariam mais de R$ 1,5 mil por mês e recusaram algumas ofertas. "Diante disso, algumas empresas desistiram de oferecer vagas", constata o assessor técnico da Coordenação de Direitos Humanos da prefeitura de Porto Alegre, José Juvenal Gomes. Mas os afegãos perceberam que a realidade local é diferente daquilo que sonharam. Agora alguns deles já admitem trabalhar por menos.O Ministério da Justiça já avisou que não vai comparecer à audiência. Autoridades do Ministério entendem que as reivindicações dos refugiados "não procedem", mas que, estarão dispostos a atendê-los, caso sofram algum tipo de privação, tenham seus direitos cerceados ou sofram discriminação. A decisão do ministro da Justiça, Paulo de Tarso Ribeiro, de não atender novos pedidos, foi respaldada pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare), órgão composto pelos Ministérios da Educação, Saúde, Relações Exteriores, Trabalho e Justiça, além da ONG Cáritas e da Acnur. No entender do Ministério, não há nenhuma ação a ser tomada porque consideram que as famílias não passam por dificuldades que justifiquem preocupação extra do governo federal. A ação dos refugiados está sendo entendida como "ato político" pelo governo federal. A defensora das famílias, que está mobilizando os afegãos, é Luciana Genro, filha do ex-prefeito e de Porto Alegre e candidato ao governo do estado pelo PT, Tarso Genro.As famílias, segundo o Ministério da Justiça, têm apartamento mobiliado, condomínio e escola particular paga para os seus filhos. Os adultos afegãos, que estão há seis meses no Brasil, não se integraram à comunidade e até hoje não falam português, ao contrário de seus filhos. Por isso, eles querem, além de ar condicionado e professor particular de português, mais ajuda financeira. Pleiteiam R$ 520 por criança e não por família. Os cabeças de família recebem também, de acordo com o Ministério, R$ 400 no emprego conseguido pelas instituições, já que não possuem qualificação para outro tipo de serviço. O governo brasileiro entende que eles estão muito bem aparados, vivendo em padrão de classe média C, melhor do que muitas famílias brasileiras, não havendo, portanto, o que mais fazer por eles. Os afegãos reclamam porque acham que deveriam receber pelo menos US$ 1 mil, como acontece com famílias que foram para Estados Unidos e Europa. Só que estes são valores pagos em países onde o custo de vida é muito maior.

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