Atropelado pela cúpula do PMDB, líder na Câmara acumula desgaste

Insistir na indicação de dois ‘fichas-sujas’ para o Turismo reforça série de erros de Henrique Alves, na avaliação da bancada

Christiane Samarco e Vannildo Mendes, de O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2011 | 22h40

BRASÍLIA - A operação política montada em torno da sucessão do deputado Pedro Novais no Ministério do Turismo produziu um perdedor: o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). Além de não conseguir comandar o processo, ele acumulou desgaste político múltiplo junto à bancada que lidera, ao vice-presidente Michel Temer, ao Palácio do Planalto e a setores do PT que já estão de olho na cadeira de presidente da Câmara em 2013.

 

Fincar pé na indicação de dois deputados considerados "fichas-sujas" pelo Planalto - Marcelo Castro (PI) e Manoel Júnior (PB) - foi apenas um erro em meio à série de equívocos cometidos pelo líder, na visão de seus próprios pares. E Alves passou recibo do desconforto na quinta-feira, 15, com uma espécie de "discurso desabafo" no Encontro Nacional do PMDB. Ao se queixar dos ataques "mesquinhos", disse que o partido "não tem medo de tempestades, nem de furacões, nem de ameaças, nem de cara feia, nem de constrangimentos".

 

Integrante da lista do líder, Castro foi citado na Operação Voucher, da PF, como autor de emendas suspeitas para o Turismo. Também foi citado no escândalo do Ministério dos Transportes, por ser irmão dos donos da construtora Jurema, alvo de 15 investigações, entre auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU), inquéritos da PF e ações de improbidade apresentadas pelo Ministério Público.

 

Embora seja identificado como expoente do grupo de José Sarney, Gastão Vieira foi fruto de uma articulação mais ampla, da qual também participaram Michel Temer, o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, e a governadora do Maranhão, Roseana Sarney. Restou ao grupo de Alves o consolo de que, se algo der errado, a conta política será paga por Sarney.

 

Talvez por isto, seu primeiro tropeço na sucessão tenha sido o de tentar, na quarta-feira, 14, esticar por mais uns dias a permanência de Novais no Turismo. Àquela altura, Alves estava preocupado em "salvar" o encontro do PMDB, que no dia seguinte reuniria três mil prefeitos, vereadores, governadores, deputados e senadores do partido em Brasília para tratar de eleições municipais.

 

Recado. Em um movimento rápido, Alves reuniu os vice-líderes da bancada para tirar uma posição de solidariedade a Novais e fixar o critério para a escolha de seu sucessor. Ao estabelecer que o novo ministro deveria ter mandato parlamentar, ele enviou o recado ao Planalto e a Temer de que não aceitaria nomes articulados fora do Congresso.

 

Seus aliados dizem que este movimento teve nome e sobrenome. Citam o vice-presidente da CEF para Pessoas Jurídicas, Geddel Vieira Lima, e o ministro do Desenvolvimento Estratégico, Moreira Franco, que tinham a preferência de Temer para o Turismo. Dizem até que se o líder não foi vitorioso, emplacando o sucessor, tampouco saiu derrotado, porque fez valer o critério que levou à indicação de Gastão para substituir Novais.

 

Mas o fato concreto é que ele não conseguiu construir uma solução de consenso e que a bancada também não fechou questão em torno dos nomes que ele propôs, endossando a escolha do líder. Mesmo assim, ele irritou Temer no início da noite, insistindo para que o vice levasse o nome de Castro ao Planalto. Temer se recusou. "Me dê ao menos uma lista tríplice", pediu.

 

Nem assim Alves conseguiu acertar a lista com a bancada. Esbarrou nos vice-líderes, que sugeriram reunir todos os deputados e tirar os três nomes em votação secreta. O líder recusou e surgiu a proposta de passar a bola ao Planalto. A presidente não caiu na armadilha e devolveu a bola ao partido, exigindo que lhe apontassem nomes. E mais uma vez, o líder não conseguiu emplacar seus apaniguados.

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