Atos retratam divórcio entre povo e Estado

Os partidos políticos se afastaram da população, a sociedade ficou dividida entre representados e não representados e o divórcio que se criou entre o Estado e o cidadão está na raiz dos protestos que tomaram conta do Brasil nas últimas duas semanas.

GABRIEL MANZANO, Agência Estado

22 Junho 2013 | 09h43

Essa é a conclusão de três cientistas políticos que participaram, nesta sexta-feira, 21, de debate sobre as manifestações de rua pelo País, promovido pela TV Estadão. José Álvaro Moisés, da USP, Carlos Melo, do Insper, e Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política, concordaram que não há democracia sem partidos, mas que as siglas precisam urgentemente voltar a cumprir o seu papel.

"Os partidos se afastaram do povo. Agora, por exemplo, algum líder do governo, ou do partido no poder, veio a público conversar ou se explicar?", cobrou Álvaro Moisés. Temas como a PEC 37, a corrupção ou a chamada cura gay estão nos cartazes das passeatas "e não se ouviu uma única resposta dos líderes às cobranças". Não há democracia sem partidos, prossegue ele, "mas eles têm de fazer a intermediação com a sociedade".

Fornazieri percebe a sociedade dividida "entre representados e não representados". Estes, no caso, são a classe média baixa e a classe B. A primeira "ganhou, mas pouco, e o Brasil continua desigual". A segunda "paga impostos, mas tem de ir buscar no mercado, e muito caro, sua seguridade e educação. Essa é a rebelião".

"Não se trata de demonizar os partidos", pondera Carlos Melo, mas "do modo como está eles não servem". Tem de haver um fio condutor, e esse fio se chama política, afirmou. A confusão que se criou provoca cenas, nas ruas, em que tem "gente de extrema direita e extrema esquerda xingando o mesmo político, por razões distintas".

Capital financeiro

Na avaliação de Fornazieri, as democracias, no mundo todo, "foram sequestradas pelo capital financeiro e isso gerou uma crise de governança". Nesse cenário, o PT, segundo ele, "se acomodou no poder e mudou de lado. Ele hoje bebe vinhos importados, em vez de conhaque barato".

Melo concorda que o capital financeiro "perdeu o hábito de olhar para a política", mas avisa que a crise "pode dar em tudo ou em nada". Crises anteriores, contra o mundo político, "levaram ao poder lideranças como Jânio Quadros e Fernando Collor", diz o professor do Insper.

E o que pode vir daqui por diante? Moisés menciona três cenários. Primeiro, uma dispersão e perda dessa energia em pouco tempo. Segundo, o movimento recolher outras demandas e desencadear um processo de mudanças. E, por fim, os partidos "podem até entender o recado (...) Aí entra na pauta a reforma política".

Aldo Fornazieri diz que sua "aposta" é que o movimento continua mais duas ou três semanas e se esvazia". Mas a sociedade pode retomar, revigorada, a ação política. Para ele, "esse seria o grande salto". As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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