JF DIÓRIO/ESTADÃO
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Atos do Dia do Trabalho costumam criticar políticas econômicas e servir de palanque político

Manifestações de mobilização da oposição ao governo Bolsonaro não devem ser muito divergentes daquelas enfrentadas por FHC; Lula e Dilma também foram alvo de críticas no âmbito econômico

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 05h00

A oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro pretende utilizar os atos comemorativos ao 1.º de maio como uma grande mobilização contra ao governo. Diferente de anos anteriores, onde eventos de organizações diferentes eram considerados rivais e nem sempre defendiam as mesmas causas, dez centrais sindicais brasileiras estarão reunidas nesta quarta-feira, 1º, para solidificar o ato.

Tendo como alvo principal a reforma da Previdência e discursos políticos, os atos desta quarta não devem se divergir daqueles de governos anteriores nos aspectos de criticar políticas econômicas do governo, além de servir de palanque para a oposição.

Confira como foram celebrados os atos do Dia do Trabalho em governos anteriores no marco de quatro meses de novas administrações.

Primeiro governo FHC: 1995

Lula lidera ato da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Diadema (SP) contra reforma da previdência proposta pelo governo. A PM calculou 15 mil pessoas, enquanto os organizadores 30 mil. Lula disse que uma conversa com FHC seria “de surdos e mudos” e garantiu apoio do PT ao governo caso houvesse rompimento com o extinto PFL.

Já o Ato da Força Sindical reuniu aproximadamente 1,5 mil pessoas com a presença do então ministro do Trabalho, Paulo Paiva. O evento defendeu as reformas do governo, entre elas a retirada de direitos trabalhistas da Constituição, como a licença maternidade, por exemplo, além da previdenciária. O ministro clamou apoio do povo às reformas e demais integrantes do ato criticaram, de forma indireta, a oposição da CUT.

Enquanto isso, a placa de identificação da fazenda de FHC e de seu ministro das Comunicações, Sérgio Motta, foi perfurada por oito tiros, em Minas Gerais.

Em Brasília, dois dias antes, o presidente assistiu a show de Maria Bethânia com a família, sendo vaiado no início do evento.

Segundo Governo FHC: 1999

Matéria do Estado apontou que manifestações não tiveram engajamento significativo da população, com exceção de São Paulo, onde 90 mil pessoas estiveram presentes no ato da Força Sindical contra a política econômica do governo. Apesar do discurso político, a festa realizada no Sambódromo do Anhembi teve palco com shows.

Também em São Paulo, 50 mil pessoas se reuniram no evento da CUT. Não foi descartada a possibilidade de mais uma greve geral como forma de reivindicar direitos trabalhistas.

Em Brasília, 500 pessoas se reuniram em ato da CUT. Em Pernambuco, os sem-terra realizaram três invasões.

O mote do protesto de São Paulo foram as políticas econômicas do governo FHC, com foco no desemprego. A situação instável dos metalúrgicos de montadoras foi mencionada por Paulinho da Força, que até considerou a possibilidade de unificar os eventos no ano seguinte.

Em missa na igreja matriz de São Bernardo do Campo, Lula, então presidente de honra do PT, discursou mensagem esperançosa para se “manter a chama acesa”.

Primeiro governo Lula: 2003

Mesmo tornando-se presidente da República, Lula participou de missa para mais de mil pessoas em homenagem aos trabalhadores em São Bernardo do Campo, na igreja matriz.

Ele prometeu retornar todos os anos à missa “para prestar contas do que estamos fazendo neste país”, além de focar o discurso em propostas econômicas do governo. O alto escalão do governo também esteve presente, com assessor especial, a então prefeita de São Paulo Marta Suplicy e outros quatro ministros.

A missa virou um ato político, com discurso de Lula sobre a consciência da sociedade brasileira ao elegê-lo. “Minha chegada à presidência é fruto da evolução da consciência política da classe trabalhadora”.

Em São Paulo, 1,5 milhão de pessoas se reuniram para shows de artistas em tom político, pedindo mais empregos e maiores salários, em evento realizado pela Força Sindical. Em 11 horas de festa, discursos ocuparam 45 minutos do tempo, segundo matéria do Estado da época.

Já a CUT fez ato para 12 mil pessoas em São Paulo e explicitou apoio a Lula.

Segundo Governo Lula: 2007

Matéria do Estado aponta que comemorações “selaram o namoro entre movimento sindical e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.

Antes criticado por integrantes da Força Sindical, como Paulinho da Força, Lula recebeu mensagens de apoio nos discursos, com críticas pontuais à política econômica do governo. Presente no evento, o então ministro Carlos Lupi afirmou na festa da CUT que o “governo, ao contrário do passado, ouve as centrais o tempo todo”. Entretanto, movimentos foram criticados por terem virado “chapa branca”.

Na festa da CUT, discursos eram cortados por vaias da maioria dos 300 mil presentes. Na Força Sindical, as falas duraram uma hora, reunindo 1,3 milhão de pessoas em São Paulo.

Contrariando promessa, de última hora Lula não compareceu à missa em São Bernardo do Campo, como fazia há mais de 20 anos. Duas mil pessoas reunidas na igreja transformaram o evento em protesto ao governo, devido à medidas consideradas liberais no âmbito econômico em detrimento dos trabalhadores. A falta de combate às injustiças sociais e a impunidade do governo também foram citadas em discurso de vigário. Homília foi interrompida quatro vezes por causa dos aplausos.

Em Alagoas, cerca de 3 mil militantes, entre eles MST e Comissão Pastoral da Terra, protestaram em frente a supermercados em Maceió contra aplicação do banco de horas a funcionários.

Primeiro governo Dilma: 2011

A volta da inflação foi o tema central dos eventos em São Paulo. Presente no ato da Força Sindical, o deputado federal Aécio Neves (PSDB), então senador e já cotado para a eleição presidencial de 2014, discursou declarando-se “companheiro da oposição” e criticou “omissão” do governo em relação ao combate à inflação.

Em resposta, o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, leu nota da presidente Dilma Rousseff que afirmava que “sob nenhuma hipótese” permitiria isso. Ela estava em São Paulo para fazer exames, quando foi detectado quadro de pneumonia, impedindo sua participação no evento. A Polícia Militar estimou 1 milhão de participantes.

Na época, ficou por conta de Aécio rebater afirmações de que o PSDB, principal partido da oposição, estaria em crise, em semelhança à atual condição da oposição ao governo Bolsonaro.

Segundo governo Dilma: 2015

No segundo mandato da ex-presidente, Lula passa a voltar ao destaque, pedindo “paciência” para com ela em ato da CUT. “Ela tem um programa de quatro anos. Esperem o resultado final do governo”, disse. Os organizadores estimaram 30 mil pessoas.

O ex-presidente aproveitou a oportunidade para fazer palanque, tendo em mente as eleições seguintes à presidência. “O que me deixa inquieto é o medo da elite brasileira que eu volte para a Presidência da República”, afirmou. As críticas também se voltaram ao projeto aprovado na Câmara de terceirização de mão de obra. Dilma havia criticado a aprovação da proposta na semana anterior ao 1 de maio.

Já no evento da Força Sindical, Aécio Neves, que havia acabado de ser derrotado por Dilma na eleição de 2014, disse que a data seria lembrada como o “dia que a presidente da República se acovardou”. O mote do evento foram os gritos de “Fora Dilma”, que culminariam no impeachment do ano seguinte. Segundo os organizadores, 1 milhão de pessoas estavam presentes em São Paulo.

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