Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil (6/12/2019)
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil (6/12/2019)

Atos bolsonaristas contra o Supremo dividem bancada ruralista e agronegócio

Ex-presidente da Frente Parlamentar Agropecuária criticou os ataques ao Judiciário e disse que as declarações só atrapalham o setor produtivo

Lauriberto Pompeu e Sofia Aguiar, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 16h29

BRASÍLIA – A tensão que se instalou sobre as manifestações previstas para o dia 7 de setembro, em meio a mandados de busca e apreensão da Polícia Federal contra o cantor Sérgio Reis, o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ) e o empresário Augusto Galvan, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), tem provocado divisões no setor ruralista.  

O deputado Alceu Moreira (MDB-RS), ex-presidente da Frente Parlamentar Agropecuária, criticou os ataques feitos ao Poder Judiciário e disse que as declarações só atrapalham o setor produtivo. "Essa é uma questão de natureza política, não tem nada a ver com o setor", disse ao Estadão

Nessa mesma linha, procurando se dissociar desse debate político, a Aprosoja Brasil divulgou nota pública negando participar, como instituição, da organização de qualquer ato de natureza violenta contra o STF, ministros ou outras autoridades. 

Para o parlamentar, que também é presidente da Fundação Ulysses Guimarães, braço de formação ideológica do MDB, as manifestações prejudicam financeiramente o próprio setor agropecuário. "Esse gesto de voluntarismo onde há agressão só prejudica a economia, prejudica o próprio agro. Há formas de vencer as questões de discordância entre o governo e o próprio Supremo que não seja a agressão pública", declarou Moreira.

Segundo o deputado gaúcho, o necessário para resolver as divergências entre os Poderes é "inteligência, estratégia e capacidade de produzir harmonia".

Já a deputada Aline Sleutjes (PSL-PR), presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, já confirmou, pelas redes sociais, presença no ato de 7 de setembro previsto para ocorrer na Avenida Paulista, em São Paulo. Apoiadora fervorosa de Bolsonaro, a deputada tem criticado o STF nas redes, dizendo que se comportam como em uma "ditadura".

Aprosoja

Depois da repercussão de áudios e vídeos chamando para manifestação pró-governo e antidemocrática no 7 de Setembro gravados pelo cantor e ex-deputado Sérgio Reis, que virou alvo de operação da Polícia Federal junto com seu presidente, a Aprosoja Brasil negou qualquer relação com ataques às instituições e com a manifestação planejada para ocorrer no Dia da Independência.

Em nota, a associação declarou que "não financia e tampouco incentiva a invasão do Supremo Tribunal Federal (STF) ou quaisquer atos de violência contra autoridades, pessoas, órgãos públicos ou privados em qualquer cidade do País".

"A associação não possui qualquer ligação com atos que defendam 'invadir' ou 'quebrar' o STF, não responde institucionalmente pela organização de nenhum movimento e repudia qualquer publicação que vincule a associação a movimentos violentos ou ilegais", enfatizou a Aprosoja no documento.

No material gravado pelo cantor que circula em grupos de WhatsApp e no Twitter, Sérgio Reis convoca uma greve nacional de caminhoneiros para protestar contra os 11 ministros do Supremo, alvo de ataques do presidente Jair Bolsonaro, de quem o músico é aliado.

O presidente da Aprosoja Brasil, Antônio Galvan, é apontado como um dos líderes do movimento, junto com Reis. Na quinta-feira da semana passada, Galvan participou de uma reunião com o cantor sertanejo. Após o encontro, um canal bolsonarista em mídia social publicou o vídeo em que prega a saída dos ministros do Supremo e promete invadir o Senado.

Galvan recebeu duras críticas por envolver a entidade na manifestação. Os produtores de soja que, segundo Reis, estavam financiando os atos, negam qualquer aporte de recursos ao movimento e dizem defender a democracia. Segundo a nota, a Aprosoja Brasil não concorda e não apoia manifestações "que preguem trancamento de rodovias, ações desordeiras e outras quaisquer que prejudiquem o abastecimento de alimentos, medicamentos e bens essenciais à população, bem como seu direito de ir e vir".

"Historicamente, a Aprosoja Brasil somente apoiou movimentos pacíficos e em conformidade com a Carta Constitucional brasileira", diz o texto.

Os recursos da associação, afirma o texto, são destinados e utilizados exclusivamente em atividades que tenham pertinência com seus objetivos estatutários, tendo sempre em vista a defesa dos interesses dos produtores de soja: "As contas da entidade são integralmente auditadas para que o mais alto nível de ética e compliance seja alcançado".

No comunicado, a Aprosoja reforça que "não financia e tampouco incentiva a invasão do STF ou quaisquer atos de violência contra autoridades, pessoas, órgãos públicos ou privados em qualquer cidade do País. De acordo com a entidade, houve sempre uma defesa, "de forma peremptória", do Estado Democrático de Direito e do equilíbrio entre os Poderes da República.

 "(A Aprosoja Brasil) Continuará a ter a mesma postura republicana em defesa do pleno funcionamento das instituições e o respeito aos representantes das esferas de poder no País", destaca. Na nota, a entidade afirma que sua missão é, inclusive, cooperar com os órgãos oficiais.

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