Ato virtual do 1º de Maio defende isolamento social e critica Bolsonaro

Líderes afirmam que pandemia escancarou a importância do trabalhador para a economia

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2020 | 17h04
Atualizado 02 de maio de 2020 | 20h46

Além da pauta anti-Bolsonaro e pró-trabalhadores, o ato virtual conjunto do 1º de Maio, realizado nesta sexta-feira por centrais sindicais, contou com uma forte campanha a favor do isolamento social para combater a pandemia do novo coronavírus. O ato exibiu mensagens gravadas pelos candidatos à Presidência na eleição de 2018 Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) e pelo governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B).

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva postou a sua participação no Facebook duas horas antes do início da transmissão, feita no canal da Rede TVT no YouTube. “As grandes tragédias também são reveladoras do verdadeiro caráter das pessoas. Não me refiro apenas ao deboche do presidente da República com memória de mais de 5 mil brasileiros mortos pela covid”, afirmou.

“A pandemia deixou o capitalismo nu. Foram necessários 300 mil cadáveres para a humanidade ver a verdade que nós trabalhadores conhecemos desde o dia em que nascemos. A tragédia do coronavírus expôs à luz do sol uma verdade inquestionável: o que sustenta o capitalismo não é o capital, somos nós os trabalhadores”, declarou o ex-presidente petista.

Muitas outras falas enfatizaram a importância dos trabalhadores para a economia e criticaram a perda de recente de direitos trabalhistas. “É importante lembrar que o Brasil contava com mais de 13 milhões de desempregados ainda antes do coronavírus. E mais de 38 milhões de pessoas era obrigada a viver a dura realidade da informalidade, sem nenhuma proteção”, disse Ciro Gomes. “Precisamos aproveitar essa dura ocasião para estar à altura daqueles que, no passado, construíram o avanço dos trabalhadores”, defendeu.

Uma das maior duras críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi feita pela antecessora Dilma Rousseff. “É triste que tenhamos de atravessar uma situação tão ruim tendo à frente um líder que elogia torturadores, desrespeita a vida das pessoas, despreza a ciência e os médicos e trata os governadores e prefeitos como inimigos”, afirmou.

Haddad acusou Bolsonaro de atacar “todas as conquistas de décadas dos trabalhadores". Ele defendeu a necessidade de “recompor as forças progressistas". A presidente do PT, Gleisi Hoffmann argumentou que a pandemia do coronavírus deixou evidente que a força do trabalho humano é o que sustenta a economia.

Já Dino salientou a importância do Sistema Único de Saúde (SUS), no combate à doença. “Estamos vendo a tragédia que seria se no passado tivesse prevalecido as teses de privatização do SUS. E antes da pandemia, havia quem dizia que o SUS não funcionava”, disse, fazendo a ressalva de que o sistema tem defeitos. O governador ainda defendeu a retomada econômica por meio de financiamento de bancos públicos, com verba adquirida por meio de uma tributação mais progressista e da tributação de lucros e dividendos.

Era esperada ainda a participação dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Segundo os organizadores do evento, no entanto, eles tinham confirmado mas não enviaram vídeos com as suas mensagens.

O ato virtual reuniu diversos rivais políticos – como Lula, Ciro e FHC – em torno da mesma pauta. Foi a primeira vez que Lula e FHC dividem um palanque, mesmo que virtual, desde o segundo turno da eleição de 1989, quando o tucano apoiou o petista contra Fernando Collor de Mello.

A primeira vez que houve ato conjunto entre diversas centrais sindicais rivais, como UGT e CUT, foi em 2018. Mas, na ocasião, a união se deu apenas na comemoração em Curitiba, onde Lula estava preso, e os palanques permaneceram separados em outras cidades, como São Paulo.

“A decisão de fazer uma só celebração com diversidade de organizações sindicais, é muito importante”, afirmou FHC. “Não é hora de desunimos, é a hora de juntarmos para construir o futuro”, acrescentou. O ex-mandatário não teceu críticas ao atual governo, diferentemente dos outros políticos que participaram.

O evento ainda contou com apresentações domésticas e discursos de vários artistas, como o ex-baixista do Pink Floyd, Roger Waters, o ator Fabio Assunção, o ator americano Danny Glover e os músicos Olívia e Francis e Hime, Leci Brandão e Kaê Guajajara.

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