Ato secreto garante emprego no Senado a filha de aliado de Sarney

Ex-ministro Silas Rondeau é o pai de Nathalie, de 23 anos, aspirante a modelo nomeada para Conselho Editorial

Leandro Colon, Rosa Costa e Rodrigo Rangel, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

15 de junho de 2009 | 00h00

Aspirante a modelo, a jovem Nathalie Rondeau foi nomeada em 26 de agosto de 2005, por meio de um ato secreto, para trabalhar no Conselho Editorial do Senado. Nathalie, 23 anos, é filha de Silas Rondeau, ex-ministro de Minas Energia, afilhado político do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Com 13 livros publicados, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Sarney preside o Conselho Editorial desde 2002. Nesse período, como revelam cópias de atos secretos obtidos pelo Estado, Sarney conseguiu empregar pessoas de sua ligação, aumentar salários e multiplicar o número de cargos existentes no órgão.Quando Nathalie ganhou o emprego - com salário de R$ 2,5 mil -, o senador já comandava o órgão. A jovem entrou no Senado um mês e meio depois de Silas Rondeau ser indicado pelo próprio Sarney para assumir o Ministério de Minas e Energia. A assessoria de Sarney afirmou que a publicação referente à nomeação da jovem não foi publicada de forma transparente em 2005 "por erro técnico".Rondeau, no entanto, deixou o cargo em maio de 2007 após a acusação, sempre negada, de que recebera R$ 100 mil de propina da construtora Gautama, alvo da Operação Navalha da Polícia Federal. Nathalie, porém, permanece na folha de pagamento do Senado, segundo a assessoria de Sarney. A assessoria garantiu que ela cumpre expediente.Nos últimos anos, a jovem, cujo perfil no Orkut registra a participação em 352 comunidades de interesse, das quais nenhuma é dedicada à literatura, tem se destacado em desfiles de moda em Brasília, como o Capital Fashion Week. A nomeação sigilosa da filha de Rondeau no Conselho Editorial soma-se a outras designações, também secretas, que beneficiaram parentes, aliados ou conhecidos do presidente do Senado. Conforme o Estado revelou na semana passada, um boletim sigiloso serviu para nomear uma sobrinha de Sarney para um cargo em Campo Grande (MS), a 1.079 quilômetros de Brasília. Outro ato, desta vez público, serviu para dar emprego no gabinete do aliado Epitácio Cafeteira (PTB-MA) à ex-miss Brasília Rosângela Michels Gonçalves, mãe do neto do presidente do Senado.VAGASPelo menos 20 movimentações secretas - entre nomeações e exonerações - envolveram o Conselho Editorial. Há decisões sigilosas também referentes à sua estrutura. Um ato secreto, assinado na véspera do Natal de 2004, quando Sarney presidia o Senado pela segunda vez, deu ao órgão um orçamento maior para contratar funcionários de confiança. O conselho então passou a ter o privilégio de dispor de seis vagas com a maior remuneração: R$ 10 mil. Assim, pode dividir, segundo regras do Senado, cada uma dessas vagas maiores por até oito cargos de R$ 1,2 mil, permitindo, no total, 48 nomeações. Outra decisão daquele mesmo mês de 2004, também mantida à sombra na ocasião, autorizou a contratação de funcionários de confiança para três vagas de comando do Conselho Editorial que deveriam ser preenchidas por servidores efetivos. As outras duas cadeiras já estão reservadas para comissionados. Na quarta-feira, o Estado revelou que o órgão serviu também para abrigar políticos do Amapá, Estado que Sarney representa. É o caso de Luiz Cantuária Barreto, conhecido como Lucas Barreto (PTB), ex-presidente da Assembleia do Amapá. Ele recebeu, por meio de ato secreto, R$ 7 mil mensais entre 2007 e 2008 do Senado. O Conselho Editorial foi usado ainda para nomear, sigilosamente, o dentista Ricardo Araújo Zoghbi, filho do ex-diretor João Carlos Zoghbi (Recursos Humanos) a partir de fevereiro de 2006. Sarney foi o mentor da criação do Conselho Editorial do Senado em 1997. Cabe a esse grupo de pessoas dar o aval para a gráfica da Casa produzir biografias de parlamentares, estudos jurídicos, técnicos e grandes coleções - como a história da Constituição brasileira. Na página oficial do conselho, a missão do órgão é assim descrita: "Editar obras de valor histórico e cultural e de importância relevante para a compreensão da história política, econômica e social do Brasil e reflexão sobre os destinos do País." A gráfica gasta R$ 30 milhões por ano com essas publicações, muitas vendidas em feiras de livros pelo País.Foi na gráfica que o ex-diretor-geral Agaciel Maia deu os primeiros passos funcionais para se tornar o homem mais poderoso da administração do Senado nos últimos 15 anos. Ele entrou ali como datilógrafo em 1977. Virou diretor executivo da gráfica anos depois. Em 1995, foi alçado a diretor-geral por Sarney. Deixou o cargo em março, após a suspeita de ter ocultado a propriedade da casa em que mora em Brasília, avaliada em R$ 5 milhões. A reportagem procurou Nathalie Rondeau na sexta-feira e no sábado em sua casa, onde mora com o pai, Silas Rondeau. Um recado foi deixado na portaria do prédio, mas nenhuma resposta foi dada até o fechamento desta edição.

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