Ativistas ocupam sede do Incra no Recife

Ação do MST é para exigir desmembramento de engenhos da Usina Catende

Angela Lacerda, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 00h00

Cerca de 100 agricultores ligados ao Movimento dos Sem-Terra (MST) ocuparam na tarde de ontem a sede da superintendência do Incra no Recife. Segundo o integrante da direção estadual e líder da ação, Alexandre Damásio, a invasão é por tempo indeterminado e hoje eles devem trancar o prédio, impedindo a entrada de funcionários. Para isso, é esperado reforço de mais agricultores.Os sem-terra mantiveram os portões do Incra fechados das 13h30 às 15h30, período em que não permitiram a entrada e saída de servidores. Depois, o portão foi liberado, condição imposta pela superintendência para o diálogo. Até o início da noite ninguém da diretoria havia aparecido para conversar com os manifestantes, que espalharam cana pela sede.O MST quer o desmembramento de 18 dos 45 engenhos da antiga Usina Catende, localizada no município de Catende (PE), e a imediata liberação de crédito de fomento para a área.A usina Catende teve falência decretada em 1995 e sua administração foi assumida pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape), em conjunto com sindicatos de agricultores da região. Na área de 26 mil hectares foi implantado o Projeto Harmonia, que funciona em cooperativa, baseado na produção de cana, piscicultura e pecuária. São 3,5 mil assentados no campo e 400 ex-operários da usina.O MST condena o modelo adotado pela Fetape. "Defendemos a agricultura familiar e não a monocultura da cana", frisou Damásio, ao informar que 1,6 mil trabalhadores do MST estão ligados aos 18 engenhos.Para o diretor de política agrária da Fetape, Paulo Roberto Rodrigues dos Santos, o MST não representa 1% do projeto, que é coletivo. Segundo ele, o movimento arregimenta trabalhadores de outros acampamentos e assentamentos para comprar essa briga. "O MST não tem proposta produtiva e, numa área sem conflitos administrada por trabalhadores, quer introduzir o conflito de forma artificial", afirmou Bruno Ribeiro, advogado da cooperativa.Ribeiro admitiu que a cooperativa enfrenta dificuldades, mas observou que, na última safra de cana, Catende bateu recorde, produzindo 1 milhão de sacos de açúcar e faturando R$ 40 milhões, dos quais R$ 29 milhões para os assentados.O presidente da Fetape, Aristides Santos, afirmou que, desde a falência, as terras da Catende foram desapropriadas. Ele assegura que a experiência dos trabalhadores é positiva e tem o apoio de outros movimentos sociais. "O MST tem procurado atrapalhar o processo em curso e, se tivesse 1,6 mil trabalhadores na área da Catende, como afirma, pela tática que costuma usar, já teria inviabilizado o projeto."Damásio admite que é uma disputa de trabalhador (MST) contra trabalhador (Fetape), mas atribui a responsabilidade ao Incra. "Ao Incra cabe a tarefa de fazer a reforma agrária."

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