Ativista se diz ''chocada'' com revelações

Criméia Almeida, de 63 anos, foi presa e torturada nos anos da guerrilha

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

Criméia Almeida, de 63 anos, perdeu três familiares na Guerrilha do Araguaia - o marido, o sogro e o cunhado - e hoje é uma das mais destacadas integrantes da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Além de ativista incansável, ela se tornou referência por causa de seu espírito investigativo. Há décadas reúne todo tipo de informação sobre a guerrilha. Sabe qual foi a trajetória de cada oficial do Exército envolvido no conflito. Esteve na região duas vezes, em busca de corpos dos desaparecidos. E empregou parte da indenização que recebeu do governo, por ter sido presa e torturada, na melhoria do seu arquivo particular.Mesmo assim, ela disse ter ficado "chocada" com algumas das revelações feitas ontem pelo Estado a partir do arquivo do Major Curió. "O que mais me impressionou foi a informação de que mais de 60% das pessoas presas pelo Exército foram executadas." A revelação, disse ela, é mais um estímulo para que se aumente as pressões sobre o Exército, no trabalho de localização dos corpos. Mas, ao mesmo tempo, ela levantou suspeitas quanto à lista de participantes divulgada pelo Estado sob o título "A Lista Inédita". Criméia diz que a relação apresentou como guerrilheiros ou simpatizantes pessoas que, na verdade, eram informantes e colaboradores do Exército.Entre os nomes nessa condição estariam Raimundo Nonato dos Santos, apresentado como guerrilheiro camponês, que teria sobrevivido às torturas; e Margarida Pereira Félix e Tota Félix, que teriam dado forte apoio aos guerrilheiros. "O Raimundo e o Tota atuaram como guias do Exército, ajudando na caça aos guerrilheiros, enquanto a Margarida servia aos militares como informante".Criméia não sabe o motivo da inclusão dos nomes, mas suspeita: "Acho que a intenção é fortalecer os pedidos de indenização para essas pessoas junto ao governo federal". Ela também manifestou desconfiança em relação às intenções do Major Curió, por abrir o arquivo logo após a Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos, ter aceitado julgar o Brasil pela ocultação de corpos dos guerrilheiros. "Fica parecendo uma coisa orquestrada, que alguém mandou ele fazer isso, como boi de piranha."

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