Atingidos pela seca bloqueiam estrada

Cerca de 1,5 mil trabalhadores rurais bloquearam hoje a BR-230, que dá acesso ao Ceará e Rio Grande do Norte, na altura do quilômetro 470, no município de Souza, no alto sertão paraibano, cobrando comida e frentes de trabalho.O prefeito de Souza, João Marques Estrela e Silva (PDT), disse que a "situação é profundamente séria e estas não foram as primeiras nem serão as últimas manifestações do povo que está sem alimentação, sem água e sem ter como sobreviver".Segundo o prefeito, o governo federal precisa se convencer da gravidade da realidade da seca e tomar providências efetivas. "As 100 mil cestas básicas que o ministro do Desenvolvimento Agrário Raul Jungmann anunciou para o Nordeste só dá para 10 municípios", afirmou.Ele lembrou que na última emergência, 9 mil cestas eram distribuídas mensalmente somente para os flagelados de Souza que, neste ano, teve cerca de 95% de sua safra destruída. "Estamos ao Deus dará", definiu José Nildo Vieira Neves, 33 anos, um dos que ajudaram a colocar as pedras que interrompeu o trânsito na BR-230. Assentado do Perímetro Irrigado de São Gonçalo, ele disse que praticamente nada do que foi plantado de coco, banana, arroz e feijão nos três mil hectares da área, foi aproveitado. No Perímetro, segundo ele, vivem cerca de 500 agricultores, mas outras 8 mil pessoas vivem de alguma atividade agrícola no local.Para o abastecimento do Perímetro, os trabalhadores querem uma ligação com o Canal da Redenção (que leva água do complexo Coremas/Mãe d´Água, em Coremas, a Souza). "Só precisava de uma tubulação, a gente não está pedindo nada impossível", disse Edílson Abranches Nogueira, reclamando de um antigo projeto do governo estadual que em princípio iria contemplar São Gonçalo, mas que teve seu roteiro modificado e deixou toda a comunidade de agricultores sem condição de trabalho.CarrocinhasA dificuldade de água para consumo no município de Soledade, no Cariri, a 280 quilômetros de João Pessoa, provocou a abertura de um pequeno comércio que representa o sustento de cerca de 80 desempregados da periferia. No inverno ou no verão, com ou sem seca, eles podem ser vistos diariamente percorrendo as ruas da cidade, levando água em rústicas carroças puxadas por jumentos para os seus clientes que lhes pagam de R$ 1,50 a R$ 3,00 por cada tonel de 200 litros.Eles pegam água das barragens de Macambira, Negrinhos e José Joaquim de Araújo. A qualidade dessa água não é das melhores, de acordo com o comerciante e vereador José Garcia (PDT). Mas para os moradores, que recebem nas torneiras água salinizada vinda do Açude do Estado, o produto é aprovado e ninguém reclama. A maioria dos cerca de 4,5 mil habitantes da área urbana consome a água da carrocinha. Os que têm melhor condição financeira, compram água vinda do Rio Grande do Norte, a R$ 10,00 o tonel de 200 litros.Everaldo Costa tem duas carrocinhas, que reveza diariamente. A cada dia um animal descansa. Ele faz uma média de cinco entregas por dia. Francisco Pereira da Silva, 49 anos, trabalhava na roça, mas sem conseguir trabalho, decidiu entrar no ramo. Ele vende o tonel por R$ 1,50 ou R$ 2,00, dependendo da distância da entrega.

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