Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Atendimento de saúde demora, mas sistema melhorou indicadores

Para professores, dados apontam que saúde pública e universal é mais eficiente; 75% da população é dependente

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2018 | 03h00

BRASÍLIA - A secretária executiva Cláudia Maria de França, de 53 anos, está sem plano de saúde há um ano e meio. Não foi uma decisão fácil. Depois de deixar o emprego que oferecia assistência médica, ela contratou por um período um plano “falso coletivo”, mas as mensalidades comprometiam boa parte de seu orçamento.

Com a desistência, veio a insegurança. “Crescemos com a ideia de que um plano particular dá maior amparo. Ficar sem ele é como se alguém dissesse: ‘A partir de agora, você estará sob risco’.” Desde a decisão, ela afirma que pouco precisou de assistência. “Vou às vezes no posto, já sabendo que é preciso chegar cedo para garantir a vaga.”

Cláudia integra um grupo de cerca de 3 milhões de pessoas que migraram da saúde suplementar para a assistência exclusiva no SUS, sistema criado há 30 anos e que, embora ainda desperte a desconfiança de boa parte da população, é apontado por especialistas como o principal responsável pela melhora nos indicadores do País.

“Não há dúvida sobre o impacto positivo do SUS para a população”, diz o professor da Universidade Federal de Pelotas, Cesar Victora. “Mas o sistema, que já era subfinanciado, agora é ameaçado com a pressão para reduzir seu tamanho e dar prioridade a planos privados de saúde, muitos de baixa qualidade”, avalia. 

Professor da Universidade Estadual de Campinas, Gastão Wagner tem avaliação semelhante. Ele afirma haver inúmeras evidências de que sistemas públicos e universais de saúde são mais eficientes do que modelos de mercado. Como exemplo, faz uma comparação de números da saúde nos Estados Unidos e no Reino Unido, que é universal. A saúde norte-americana tem um gasto equivalente a 16,4% do PIB. A do Reino Unido, por sua vez, de 7,11%. “E indicadores de saúde são equivalentes, com ligeira vantagem para o Reino Unido”, completa Wagner.

Além do financiamento, Victora e Wagner listam dois grandes desafios para o SUS: garantir a qualidade de atendimento e resguardar as conquistas obtidas pelo sistema. Os números recentes mostram que essa última tarefa é urgente.

A mortalidade infantil voltou a subir, depois de anos de queda. “A experiência internacional mostra que são raríssimos os casos em que tais retomadas ocorrem. A tendência é de que mesmo em situação de crise, as taxas de mortalidade, permaneçam estáveis”, afirma o professor de epidemiologia da Universidade Federal da Bahia Naomar de Almeida Filho. 

“As exceções são raras, como em alguns países da África”, afirma Almeida Filho. Mantida a tendência, completa o professor da Federal da Bahia, a expectativa de vida do brasileiro poderá diminuir. 

A aumento da mortalidade de crianças surpreendeu especialistas e ocorre pouco depois da divulgação de dados que indicavam uma melhora nos indicadores até 2015. Um estudo coordenador por Maria de Fátima Marinho de Souza, que está à frente do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis do Ministério da Saúde, mostra o avanço dos indicadores de saúde no País entre 1990 e 2015.

A taxa de mortalidade havia sofrido uma redução de 28,7%. Neste período, a taxa de mortalidade por diarreia havia caído 86,8% e de meningite, em 70,7%. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida ao nascer passou de 67,9 anos para 74,4 anos.

O retrocesso também está estampado nas estatísticas de malária. Depois de seis anos de queda, a infecção voltou a aumentar no ano passado. “Quando a doença começa a cair, a atenção se dispersa”, afirma Cláudio Maierovitch, da Fundação Oswaldo Cruz. O retrocesso, avalia, tem um efeito perverso, que é a perda de mobilização. “Retomar os ganhos é sempre mais difícil do que avançar na primeira vez.”

Cláudia diz torcer pela melhora no sistema e não cogita voltar mais para os planos privados. “Minha mãe também se trata no SUS. Pode ser demorado, mas quando a gente consegue o tratamento, ele é de boa qualidade.” 

Como exemplo, ela cita uma cirurgia que fez durante o tratamento de câncer. “Uma das operações foi feita pelo SUS. Não ficou nada a dever aos hospitais privados. O atendimento é nosso direito. Talvez seja melhor, em vez de recorrer ao plano, cobrar bom atendimento, lutar pelo SUS.”

Demora

O desafio da qualidade fica claro com o relato da estudante Karolini da Luz Oliveira, de 24 anos. Sentada à espera de atendimento na Casa de Saúde de Santa Maria (RS), ela não escondia o cansaço. 

Estava em meados de junho e, só então, três meses depois da primeira visita ao médico, seu problema começava a ser solucionado. “Foram sete consultas, um socorro com ambulância, um desmaio, internação.” 

Karolini estava com toxoplasmose, doença provocada por um parasita que causou na cidade gaúcha um surto de proporções nunca vista. Na primeira visita ao centro médico, em março, o diagnóstico foi virose.

Dias depois, como o problema não se resolvia, a estudante voltou ao posto, mas o sistema estava fora do ar. Em outra visita, já com nódulos, fez uma radiografia. Após desmaiar e ser internada, recebeu soro. Só na sexta consulta veio a hipótese da toxoplasmose, confirmada no exame. “Fico pensando quanto desgaste, quanto desperdício.”

Wagner reconhece haver limitações do SUS, mas argumenta que o sistema ainda não foi totalmente implementado, não recebe recursos suficientes e não tem apoio político. “O primeiro passo é fazer com que o SUS ganhe corações e mentes: 75% da população depende exclusivamente dele, além de realizar serviços para toda sociedade.” 

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