Até base quer explicação de Sarney sobre imóveis

Unidades que são ocupadas pela família do presidente do Senado no bairro dos Jardins, na capital paulista, estão em nome de empreiteira

Rosa Costa e Denise Madueño, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

Senadores de partidos de oposição e da própria base governista querem investigar a conexão da família do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com a construtora Holdenn Construções, Assessoria e Consultoria Ltda., cujo principal nicho de negócios é o setor elétrico, área em que o senador exerce influência. Reportagem publicada ontem pelo Estado mostra que dois dos três apartamentos ocupados pela família na Alameda Franca, na região dos Jardins, em São Paulo, estão em nome da empresa, antes batizada de Aracati Construções, Assessoria e Consultoria Ltda.O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), afirma que seria "simplório" atribuir a uma coincidência a ligação da empreiteira com os imóveis. "Tenho certeza que não é isso, mas não vou pré-julgar", diz. "O certo é que não deve pairar nenhuma dúvida sobre essa questão, sob pena de o processo de investigação se estender até o setor elétrico." Para Guerra, os fatos em si "são extremamente graves".O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Demóstenes Torres (DEM-GO), é categórico ao defender que as "evidências" de troca de favores são motivo de sobra para instaurar uma investigação. "Estão sobrando evidências, e não dá para desconhecer", alegou. "Quantas denúncias mais ele agüenta?", questionou. Pela avaliação do senador de oposição, os fatos divulgados até agora pela imprensa, como abuso de poder, nepotismo e a suspeita de corrupção, fragilizaram não apenas o presidente do Senado, mas também a instituição e os demais parlamentares."O Congresso não pode fechar os olhos ao que tem saído (na imprensa) relacionado ao presidente Sarney", defendeu. "É necessário que o Conselho de Ética se manifeste, em vez de arquivar as denúncias." Na opinião dele, a situação chegou a tal ponto que até mesmo os aliados do presidente do Senado deveriam "começar a se manifestar e a pensar no próprio Sarney". Para Torres, a situação é insustentável. "Na medida em que as denúncias avançam, suas vísceras ficam expostas e ele se desgasta cada dia mais", afirma. "Agora, não é mais um desgaste pessoal, é de todos no Senado e todos os senadores ficam afetados".O senador Walter Pereira (PMDB-MS), da base governista, disse esperar que Sarney dê as explicações sobre a compra ou o uso dos apartamentos em São Paulo. Segundo ele, em tese, Sarney pode estar recebendo favores. O senador lembrou que Sarney, como presidente do Senado, tem verba de representação para se hospedar em hotéis em São Paulo. "Por que ele preferiu o apartamento? Isso precisa ser esclarecido", disse o senador.A reportagem do Estado revelou que um dos apartamentos foi utilizado por Sarney, por exemplo, em junho passado, quando o presidente do Senado viajou a São Paulo para acompanhar a recuperação da filha, Roseana, operada para correção de um aneurisma cerebral."Mesmo que não tenha a eiva de qualquer envolvimento pecaminoso e de qualquer troca de favores, tem de esclarecer. Se foi levantada a dúvida, ele (Sarney) precisa esclarecer. É o ônus de quem exerce o mandato popular. Vale para Sarney, para mim e para todos os que foram eleitos. Todo homem público tem o dever de prestar contas no que envolve suas ações", disse Pereira.O líder do DEM, senador José Agripino (RN), considerou que a ligação de Sarney com a empreiteira no caso dos apartamentos agrava ainda mais a situação do presidente do Senado. Para Agripino, as questões que foram levantadas contra o presidente do Senado até agora já são suficientes para a instauração de processo por quebra de decoro parlamentar. "É uma sequência inominável de denúncias gravíssimas", disse. O líder de oposição afirmou que a abertura de processo contra Sarney no Conselho de Ética do Senado depende dos votos governistas. "Vamos ver se serão sensibilizados pelos fatos ou pelos argumentos de Lula", disse.O senador Renato Casagrande (PSB-ES), que integra partido governista, afirma não ter dúvida que o "grande equívoco" do Senado tem sido o de impedir as investigações de episódios relacionados ao presidente da Casa. Segundo ele, a estratégia da tropa de choque tem dado resultado oposto ao esperado. "E a cada vez que se abre mão da investigação, o presidente Sarney fica numa posição de fragilidade, porque não tem como argumentar sua inocência", afirma. "O ideal seria que essas suspeitas e essas dúvidas pudessem ser investigadas naturalmente." No entanto, considerou Casagrande, se não houver condições políticas de o Senado prosseguir com as investigações, ele aguarda que o Ministério Público leve adiante a apuração.FRASESWalter Pereira Senador pelo PMDB-MS"Mesmo que não tenha a eiva de qualquer envolvimento pecaminoso e de qualquer troca de favores, tem de esclarecer. Se foi levantada a dúvida, ele (Sarney) precisa esclarecer. É o ônus de quem exerce o mandato popular. Vale para Sarney, para mim e para todos os que foram eleitos. Todo homem público tem o dever de prestar contas no que envolve suas ações"Renato Casagrande Senador pelo PSB-ES"E a cada vez que se abre mão da investigação, o presidente Sarney fica numa posição de fragilidade, porque não tem como argumentar sua inocência"

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