Aliados do governo dizem que discurso de Guedes 'prescreveu' e pedem mudanças no ano eleitoral

Parlamentares jogam casca de banana em conversa com Campos Neto, do Banco Central; ministro da Economia diz não se importar em tirar nota baixa “no fiscal”

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2021 | 16h08

Caro leitor,

Deputados e senadores que conversaram com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na noite de terça-feira, 23, não pouparam críticas ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Em jantar promovido pela Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo, Campos Neto ouviu queixas sobre a fragilidade das reformas e ponderações de que a retórica de Guedes “prescreveu”, além de cobranças para a retomada do crescimento no ano eleitoral de 2022.

Amigo do ministro da Economia, o presidente do Banco Central respondeu às perguntas sem cair nas armadilhas políticas. Disse que o ritmo de alta na taxa básica de juros tem sido calibrado para colocar a inflação dentro da meta, mas lembrou a influência do cenário internacional nesse jogo. Para Campos Neto, existe um choque de demanda – e não de ofertas –, que justifica o aumento dos juros.

Diante de um cardápio com vários tipos de carne, peixe e salada, os comensais “apertaram” o presidente do Banco Central para ver se ele soltava ali uma dica sobre o futuro do Posto Ipiranga do presidente Jair Bolsonaro. Não conseguiram.  

“O Roberto foi apertado de todo jeito, mas se saiu com elegância invejável das intrigas e cascas de banana que lançaram sobre sua relação com Guedes”, disse o senador Esperidião Amin (PP-SC), um dos participantes do jantar, que reuniu 55 parlamentares. O PP de Amin é o principal partido do Centrão.

Um dos que mais “cutucaram” o presidente do Banco Central foi o deputado Sílvio Costa Filho (Republicanos-PE), da base aliada na Câmara. “Eu disse que as ações dele, com Bolsonaro ganhando ou perdendo a eleição, terão reflexo no futuro governo”, afirmou o deputado. “Ele é a única voz que passa credibilidade e segurança institucional, mas o importante não é o que se diz e, sim, o que as pessoas entendem.”

A referência ao futuro governo ocorreu porque, após a aprovação da lei que confere autonomia ao BC, Campos Neto ficará na presidência da instituição após as eleições, até dezembro de 2024, e ainda pode ter o mandato renovado.

A conversa passou por emprego, educação, reformas, 5G, Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, Auxílio Brasil, eleições e até inteligência artificial. Muitos ali manifestaram preocupação com os rumos da economia e destacaram que Guedes perdeu credibilidade. Mas o que se disse sobre a viabilidade da terceira via para enfrentar Bolsonaro e o ex-presidente Lula?

“A única insinuação da terceira via no jantar foi a passagem meteórica do Kassab, que veio lançar um novo produto no mercado e, como bom beduíno, já está planejando com qual seda vai embalá-lo”, brincou Amin, ao lembrar que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, entrou e saiu do convescote muito rapidamente.

Kassab estava em Brasília para o encontro do PSD, que ocorreu nesta quarta-feira, 24, e jogou os holofotes sobre o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG). Cotado para candidato ao Palácio do Planalto, Pacheco disse estar com “corpo, alma, mente e coração” a serviço do País. “Mineiro quando fala assim é candidatíssimo”, constatou Kassab.

Embora o jantar tenha reunido muitos integrantes do Centrão e de partidos que se aliam ao governo mesmo sem compor o bloco, não faltaram estocadas na direção do Palácio do Planalto. A avaliação ali foi a de que promessas feitas por Guedes não têm mais eco e o ministro enfrenta intenso processo de desgaste.

“Ele sempre tem a convicção de que vai acertar na mosca, só que isso não acontece”, observou o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). “Não conseguimos ver o pensamento do grande Posto Ipiranga gerar resultados.”

Moreira disse que procurou encaixar no jantar considerações sobre o “mundo real”. “Se o Brasil quer crescimento econômico, não pode ter 80 milhões de pessoas de 18 a 65 anos excluídas do mercado de trabalho. Ficamos discutindo ‘Bolsa isso, auxílio aquilo’, mas o Estado não qualifica profissionalmente as pessoas”, argumentou ele. “De nada adiantam explicações econômicas brilhantes se faltam políticas públicas que geram riqueza.”

A manifestação do deputado provocou surpresa. Motivo: Moreira é visto como um dos mais fiéis bolsonaristas na bancada do MDB. “Sou governista e por isso mesmo fiz ali um diagnóstico. Agora, vamos tratar a doença. O governo é liberal na economia e estatizante no Palácio”, protestou o ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, ao constatar que a sede do governo tem “muitos militares” para defender interesses corporativos. “Cadê o projeto de reforma tributária? Cadê o projeto de reforma administrativa?”, perguntou.

Guedes deve ter ficado com a orelha vermelha, mas foi defendido por Campos Neto, que não entrou no mérito de especulações de que seria um nome de confiança do Planalto, do Congresso e do mercado para substituir o Posto Ipiranga.

Na noite desta quarta-feira foi a vez de o próprio Guedes ir a um jantar, também em Brasília, organizado pelo Movimento Brasil Competitivo. O encontro contou com a presença de empresários e parlamentares. Ali o discurso foi diferente. Cansado de ver que jogam sobre suas costas a responsabilidade do aumento do custo de vida, o ministro traçou um panorama no qual conclui que o Banco Central precisa correr para controlar a alta da inflação.

Guedes ponderou que não vê problema em tirar nota baixa “no fiscal”. Alegou que, neste momento pós-pandemia de covid, é preciso ter uma licença para gastos sociais porque, diante de tantas dificuldades, parte da população está "comendo osso". Na prática, o dono da chave do cofre quer desviar os holofotes para o lado do Banco Central. Enquanto isso, ele tenta garantir a reeleição de Bolsonaro, em 2022.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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