Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Ataques a Ludhmila Hajjar expõem modus operandi de influenciadores bolsonaristas no Twitter

Para analistas, trata-se de mais um episódio em que 'milícias virtuais ideológicas' atuaram de forma organizada para atacar reputações

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 12h12
Atualizado 17 de março de 2021 | 14h17

Blogueiros e influenciadores bolsonaristas foram os responsáveis por impulsionar ataques à médica Ludhmila Hajjar no Twitter, de acordo com dados de levantamentos da consultoria Bites e da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) feitos a pedido do Estadão. De acordo com os estudos, os ataques aconteceram de forma crescente, a ponto de a médica relatar, em entrevistas, a exposição do número de seu celular, ameaças e tentativas de invasão a seu quarto de hotel em Brasília. O hotel informou não ter registrado ocorrências.

Ainda que a maior parte dos tweets sobre a cardiologista tenham sido em sua defesa - somente sete dos 50 tweets com mais repercussão eram da direita bolsonarista-,  as mensagens hostis à médica surgiram como resposta da direita bolsonarista à defesa da postura pró-ciência de Ludhmila. Antes da escolha de Marcelo Queiroga para ser o novo ministro da Saúde do governo de Jair Bolsonaro, ela foi cotada para o cargo, mas declinou na segunda, 15, por divergências com a gestão do governo federal para a pandemia do coronavírus.

De acordo com cientistas políticos ouvidos pela reportagem, trata-se de mais um episódio em que influenciadores bolsonaristas expuseram seu modus operandi de ataques contra reputações. "No Brasil, há as milícias virtuais ideológicas e neste episódio ficou claro que elas se organizaram rapidamente, percebendo que o presidente está acuado pela perda de controle política e pela reprovação de seu governo, e partiram para a política de terra arrasada", diz o filósofo e analista político Roberto Romano. "No caso, a vítima era interessante para eles. Uma pessoa sem trato político, com um histórico na vida acadêmica e hospitalar. Foi dado um recado ao presidente e ele obedeceu imediatamente."

Em 2019, a indicação da cientista política Ilona Szabó para para ser suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária é outro exemplo. Indicada pelo então ministro da Justiça Sérgio Moro, ela virou alvo da fúria da rede bolsonarista por já ter manifestado discordância de ideias do presidente. A hashtagh #IlonaNão virou trending topic no Twitter.  

Assim como Ilona, a médica relatou ataques e ameaças de morte, que teriam sido recebidas principalmente depois da exposição de seu nome nas redes sociais. Além dos ataques, perfis com o nome de Ludhmila foram utilizados durante o fim de semana e chegaram a ser replicados por famosos e influenciadores como se fossem da própria médica. O Estadão identificou pelo menos três perfis utilizando o nome da médica. Em entrevista à Globonews, ela disse que as contas eram falsas.

De acordo com a Bites, foram publicadas quase 97,5 mil menções a Ludhmila entre domingo, 14, e o fim da tarde de segunda. A movimentação online, porém, começou no sábado, quando a Coluna do Estadão citou a possibilidade de a médica ser a nova ministra da Saúde. As primeiras informações que desagradaram à direita foram publicadas por perfis de esquerda, que comemoraram a possível indicação da médica para o cargo.

O Laboratório de Estudos Sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Ufes, identificou publicações de cerca de 51 mil usuários do Twitter a respeito de Ludhmila. Cerca de 22% das publicações foram geradas a partir da rede bolsonarista, impulsionadas por publicações do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB), aliado do presidente, e da página Família Direita Brasil. que reúne apoiadores.

De acordo com o cientista Fábio Malini, que coordenou o levantamento, os ataques estão relacionados a um vídeo antigo em que a médica aparece cantando de forma descontraída a música "Amor, I Love You" para a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) dentro do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. 

Na bolha bolsonarista, os ataques a Ludhmila começaram na tarde de domingo. Neste momento destacaram-se dois perfis, de acordo com a Bites: Dom Lancelotti, um indivíduo se define como "representante gay conservador", e Família Direita Brasil. Lancelotti associou Ludhmila a Dilma e publicou críticas às 16h11. O outro perfil, nesse momento, ainda com pouca repercussão, relatava que ela seria "especialista no tratamento de covid-19".

Às 16h33, Lancelotti publicou trecho de uma live de Ludhmila com Dilma. Pouco depois, às 17h07, o Família Direita Brasil publicou foto da médica com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM). Em seguida, afirmou que Ludhmila era médica do governador goiano Ronaldo Caiado (DEM) e do ministro Dias Toffoli. A Bites identificou que a matéria usada por Lancelotti para criticar Ludhmila foi publicada pelo site Goiás 24 Horas em 2018 e informava que ela era cotada para ser secretária de Caiado. 

"Em nenhum momento ameçamos a Sra. Ludhmila e somos totalmente contrários a qualquer tipo de ameças a quem quer que seja", escreveu a página Família Direita Brasil em nota à reportagem nesta quarta, 17. A página diz se definir como antiesquerda, não bolsonarista, e afirma não ter nenhum vínculo ao governo ou à família do presidente. "A cardiologista Ludhmila Hajjar é médica de renome, especializada no tratamento da covid e merece toda nossa admiração. Nosso perfil repudia veementemente qualquer ameaça contra a Dra Ludhmila e temos a convicção de nenhum dos nossos tuítes incentivou qualquer tipo de violência. Em nenhum momento criticamos a médica, apenas mostramos que seus posicionamentos a respeito do tratamento à covid eram contrários à postura do governo federal". A página excluiu postagens relacionadas a Ludhmila após a publicação da reportagem. 

Perto das 18h de domingo, quem impulsionou ataques a Ludhmila foi Roberto Jefferson. Os dois tweets com mais RTs de bolsonaristas atacando a médica são dele. "Olhem a turma dela", escreveu Jefferson, em uma publicação com foto em que Ludhmilla aparece ao lado de Maia. À noite, outros dois perfis mantiveram a onda de ataques: Brasil Sem Medo, site ligado ao escritor Olavo de Carvalho; e a conta do empresário Otávio Fakhoury, também apoiador do presidente. "Dra. Ludhmila tem uma longa lista de serviços prestados à oposição ao governo Bolsonaro", escreveu o Brasil Sem Medo. "Foi o Fábio Wajngarten quem conseguiu evitar que Ludhmila Hajjar fosse escolhida ministra no ano passado", escreveu Fakhoury.

"Essa dinâmica parte do núcleo ideológico duro do bolsonarismo que está nas redes. Não é algo novo nesses mais de dois anos de governo Bolsonaro. O nome aparece e é exposto ao crivo dos apoiadores do presidente", diz o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie. "Desta forma, o presidente passa a mensagem de que está junto de seus apoiadores, dando um retorno positivo àqueles que rejeitam o nome da pessoa indicada."

Roberto Romano atenta para a ação coordenada nas redes. "A sincronia mostra que existem cérebros. Não é uma ação espontânea sem tática. Por isso, a importância da investigação que está sendo conduzida no Supremo Tribunal Federal a respeito dos atos antidemocráticos. O fato de que algumas mobilizações começam no ambiente online não as tornam menos graves. O mundo vê o renascimento de movimentos totalitários com seguidores virulentos de luta ideológica, que se organizam para atacar indivíduos que possam representar resistência".

Versão. Na entrevista à Globonews, Ludhmila falou dos ataques. "Nestas 24 horas, houve uma série de ataques a mim. (...) Estou num hotel em Brasília, e houve três tentativas de entrar no hotel. Pessoas que diziam que estavam com o número do quarto e que eu estava esperando-os. Diziam que eram pessoas que faziam parte da minha equipe médica. Se não fossem os seguranças do hotel, não sei o que seria", afirmou.  O B Hotel, em que ela estava hospedada, informou que Ludhmila não registrou nenhuma tentativa de invasão e nenhuma ocorrência foi relatada.

Ludhmila havia se reunido com Bolsonaro na tarde de domingo e comunicou a ele sua decisão na manhã de segunda, 15, em novo encontro no Palácio do Planalto. Os ataques ocorreram, segundo ela, entre essas duas reuniões. "Realmente foi assustador. Está sendo, porque eles não terminaram. Criaram perfis falsos meus. Divulgaram meu celular em redes sociais. Imagina, eu sou uma médica, eu preciso do meu telefone para atender meus doentes. Eu recebo mais de 300 chamadas. Ameaças de morte" , disse.

Roberto Jefferson e o site Brasil Sem Medo não responderam à reportagem. Dom Lancelotti ironizou o fato de ter sido procurado; Ludhmilla Hajjar e Otavio Fakhoury não foram encontrados.

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