Ataque de Bolsonaro a Pujol quer evitar novo fracasso eleitoral do presidente

Presidente pretende se desfazer de Mourão e não simpatiza com o comandante do Exército; chefes militares reagem com manifesto político

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2020 | 10h04

Caro leitor,

toda vez que Jair Bolsonaro lembra que é o dono da caneta, que sua bic nomeia e demite qualquer um no governo, não demora muito para ele se desfazer de um auxiliar. Há quem diga que o presidente antipatiza com o general Edson Pujol. Não gostou de manifestações públicas do general, que disse ser a covid-19 o maior desafio de sua geração. Bolsonaro fez questão de lembrar que Pujol só comanda o Exército por causa da tinta de sua caneta.

A situação das Forças Armadas é conhecida. Generais fizeram um pacto com Bolsonaro para se livrarem do PT e do que chamam de politicamente correto, um mundo que caminha em sentido contrário ao daquele das conspirações e ameaças, que muitos enxergam nas ações de liberais, ecologistas, jornalistas, artistas e intelectuais – em comum, estes, normalmente, têm pouco interesse pela defesa nacional e nem sempre respeitam os homens de farda. Desde então, a conta do bolsonarismo chega aos generais a todo o momento.

Quando os Comandos das Forças singulares e o ministro da Defesa precisam publicar um manifesto político em forma de nota oficial, para dizer que quem manda é o presidente, a exemplo do que aconteceu no sábado, dia 14, não há como dizer que a política não entrou nos quartéis. Ao menos entre vários generais comandantes ela já estava lá, ainda que negada nos discursos ou sinceramente repudiada por oficiais que procuram manter os padrões éticos militares nesses tempos de radicalismo e insensatez.

Os fatos falam mais do que as palavras. Sim. A prática ainda é o único critério da verdade. Se não havia política nos quartéis, o que fazia o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas tuitar sobre o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pela Lava Jato, às vésperas do julgamento de seu habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal? Não havia, então, um ministro da Defesa, que – como disse a nota de sábado –, integrava o governo e devia ser o "único representante político das Forças Armadas"? Villas Bôas fez política e seu exemplo reverberou nos quartéis.

E a política continuou na campanha eleitoral com um objetivo: eleger Jair Bolsonaro. O general Luiz Eduardo Ramos promoveu, com a bênção de Villa Bôas, a maior formatura de tropa que o Comando Militar do Sudeste assistiu em anos para lembrar o 50.º aniversário do assassinato do sargento Mário Kozel Filho. A homenagem ao soldado morto em um atentado terrorista em 1968 da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), apesar de justa em relação à memória do militar, fazia o Exército, que deve representar toda a Nação, mais uma vez tomar parte de um dos lados do conflito político. Reviveu os tempos em que a Força se comportava como partido e reprimia quem se lhe opunha, mandando às favas o apartidarismo e isenção necessários à instituição de Estado.

Se Ramos quisesse homenagear os mortos naquele conflito, devia seguir o que dizia o general Antonio Carlos de Andrada Serpa. Após o fim da ditadura, Serpa pretendia superar as feridas do passado. Para tanto, citava o exemplo de Caxias: “Quando solicitado a comemorar a vitória sobre os farrapos, em 1845, (Caxias) respondeu: ‘Não, antes rezemos um Te Deum pelas almas dos imperiais e farroupilhas, pois eram todos brasileiros’. Reconhecer o idealismo equivocado dos terroristas e os excessos da repressão será um convite à verdadeira Anistia e Justiça”, concluiu Serpa.

Ramos comandava tropa, bem como Hamilton Mourão comandava quando fez seus pronunciamentos e foi assim que despontou como candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. Quase todos os generais do Alto Comando de 2016 foram nomeados para cargos no governo. Muitos dos que tinham três estrelas também foram convocados. Até militares da ativa ocuparam funções civis e políticas no governo sem que o comando das Forças singulares – ao menos publicamente – apresentasse reclamação. Ainda que se pensasse tratar de situação temporária, o exemplo perdura e sua força aproxima a política dos quartéis.

Como lembrou um coronel para a coluna, a vida nos quartéis mudou. Nos anos 1970, bastava o comandante de um batalhão determinar o apagão dos rádios e TVs para os militares ficarem isolados. A telefonia celular e a informática trazem os memes das redes sociais, o WhatsApp e os tuítes de generais da reserva para dentro das unidades. Recentemente, a Marinha proibiu o uso de celulares em suas unidades. Pujol mandou publicar em 2019 portaria para disciplinar o uso de redes sociais. E se mantém afastado do Twitter. 

Bolsonaro sabe disso. Não há como enganá-lo. O presidente não é bobo. Sabe o valor para uma campanha eleitoral de uma lista de e-mails e telefones celulares ou da possibilidade das conversas no Círculo Militar. E compreende a importância de se comparecer a solenidades militares e o quanto é difícil ser eleito quando os quartéis sabotam esse esforço, como acontecia no começo dos anos 1990, nos comandos de Leônidas Pires Gonçalves e Carlos Tinoco, que fecharam as portas das organizações militares ao capitão.

A mensagem dele para Pujol é clara. Bolsonaro exige lealdade e concordância. Tem ciúmes da sombra, de qualquer pessoa do governo que apareça bem na imprensa. Teme conspirações dos militares ou que eles o deixem a pé em 2022. Um general ouvido pela coluna creditou a assessores do Planalto que “apagam o fogo com gasolina” as intrigas que buscam indispor Pujol com o presidente.

Bolsonaro tentou fazer as Forças Armadas defenderem seu governo em vez da Constituição. Flertou com o golpe ao comparecer em manifestação em frente ao quartel-general do Exército que pedia o fechamento do Congresso. Queria um comando disposto a segui-lo na aventura. Não que Pujol se lhe oponha. As recentes declarações em público sobre as dificuldade orçamentárias do Exército e a necessidade de se afastar a política dos quartéis são óbvias. Pujol não é Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, que lembrou na sexta-feira a Donald Trump que obedece a Constituição, afirmando: "Não fazemos juramento a indivíduos". 

Pujol também não mandou que os militares da ativa em função civil retornassem aos quartéis, o que podia lhe custar o cargo, mas faria dele um exemplo.

O que incomoda Bolsonaro é o fracasso de seus candidatos nesta eleição e a ameaça de derrota em 2022. Sabe que o que comanda os homens é a perspectiva de poder. Ele quer se desfazer de Mourão, o que pode lhe valer novos desafetos. Poucos generais, no entanto, terão a coragem de enfrentá-lo, caso ele seja a única perspectiva de permanência dos militares no poder em 2022.

Bolsonaro não é bobo. Prepara-se todo dia para as duas únicas coisas que lhe importam: defender os filhos e obter a reeleição. Ele sabe que a maioria dos generais votou nele pela primeira vez em 2018. No sábado, a cúpula escreveu no manifesto para salvar Pujol e demonstrar união: "O presidente da República, como Comandante Supremo, tem demonstrado, por meio de decisões, declarações e presença junto às tropas, apreço pelas Forças Armadas, ao que tem sido correspondido". A diferença para o discurso de Milley é por demais evidente.

Querendo mostrar a cúpula distante da política, o documento foi assim recebido por um coronel intendente da Aeronáutica: "Esse manifesto é para inglês ver, porque os militares são tão interessados por política quanto qualquer paisano, mas a maioria dos oficiais superiores e generais não está nem aí para assuntos de política. É uma pena". Um brigadeiro disse à coluna: "Fique atento. Foca no Exército, pois, como eles estão mais próximos, são os mais atingidos". 

Se há militares descontentes com o governo, afirma outro coronel, basta seguir o exemplo do general Maynard Santa Rosa e entregar o cargo. A cúpula escolheu lembrar ao presidente – e a quem mais leu o documento – que "um País forte requer instituições sólidas e transparentes". E conclui, ao mesmo tempo em que generais da reserva, como Santos Cruz e Paulo Chagas, tuitavam contra o presidente: "Tratar com franqueza os assuntos da Defesa, além de proporcionar o fortalecimento das instituições, contribui para o propósito de alçarmos o Brasil a níveis adequados de desenvolvimento e segurança”. Se isso tudo não é fazer política, essa coluna não sabe mais o que a política é.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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