GABRIEL SCHLICKMANN/ISHOOT PAGOS
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Ataque a Borba Gato: direita fala em terrorismo e esquerda em ‘exemplo’

Incêndio em estátua de bandeirante na zona sul de São Paulo se tornou alvo de disputa política nas redes sociais

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2021 | 19h05

O incêndio à estátua de Borba Gato se tornou rapidamente alvo de disputa ideológica em discussões nas redes sociais. O tema “Vandalismo”, com comentários sobre o incêndio na zona sul de São Paulo e também sobre os protestos contra o presidente Jair Bolsonaro, ficou entre os mais comentados do Twitter. 

Enquanto expoentes da esquerda manifestaram apoio ao ataque, grupos na direita disseram que tratava-se de terrorismo. O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), por exemplo, classificou o ato contra a estátua como “ação simbólica importante”. Já o advogado Arthur Weintraub, ex-assessor da Presidência da República, disse que tratava-se de uma ação “terrorista” para “apagar nossa história, e criar o caos”. Ele chegou a sugerir que o próximo passo dos grupos que apoiaram o incêndio seja queimar igrejas. 

Outros parlamentares de esquerda, ao comentar o caso, destacaram o histórico de violência contra indígenas associado aos bandeirantes e a Borba Gato. “O que vocês acham que devem ser feito com monumentos que homenageiam homens cujo passado é marcado pela exploração e pelo genocídio?”, questionou a vereadora de São Paulo Erika Hilton (PSOL). O influenciador digital conservador Leandro Ruschel disse que o caso “segue o padrão de ação dos terroristas de extrema-esquerda nos EUA”, e acusou políticos da oposição de “incentivar o terrorismo”. 

“Muito ruim o modismo de derrubar e queimar estátuas chegar aqui”, disse a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP). “Parece que nossa capacidade se limita a imitar o que há de pior no exterior.”

O ataque à estátua do bandeirante repete uma onda de protestos contra monumentos a figuras históricas ligadas ao colonialismo e à escravidão, que ganhou força no ano passado especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Diferentes estátuas de Cristóvão Colombo, considerado o descobridor do continente americano, foram depredadas em cidades americanas durante as manifestações antirracistas de 2020, que tiveram como estopim o assassinato de George Floyd. Em Bristol, na Inglaterra, manifestantes jogaram no rio uma escultura do traficante de escravos Edward Colston.  

Historicamente, a derrubada de estátuas não é um ato praticado apenas por grupos de esquerda. Nas últimas décadas, isso ocorreu tanto nas manifestações de 2014 na Ucrânia, quando esculturas de Vladimir Lenin foram derrubadas, quanto em 2003 com uma estátua de ferro de Saddam Hussein em Kerbala, no Iraque, levada abaixo por militares do exército americano. 

A estátua de Borba Gato já havia sido alvo de protestos em 2016, quando amanheceu coberta de tinta vermelha. Desde então, grupos contrários ao monumento passaram discutir a possibilidade de sua remoção. 

O crime de dano ao patrimônio público, previsto no Código Penal, pode resultar em detenção de seis meses a três anos, e é inafiançável. Já o crime de terrorismo, na legislação brasileira, é definido como um ato que tem a finalidade de provocar “terror social ou generalizado” por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião. Os atos previstos na lei antiterrorismo incluem situações como atentados contra a vida, utilizar substâncias que podem causar destruição em massa, ou sabotagem. 

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