Atacar, obra de terceiros

A considerar que em temporada eleitoral a televisão é desligada em cerca de 450 mil domicílios de São Paulo, ali pelas 20h30 (sem mencionar quantos milhares mantêm o eletrodoméstico ligado para ver DVD ou TV paga), a propaganda de maior impacto para o eleitor é aquela em doses homeopáticas, espalhadas pelos intervalos comerciais convencionais. Nesse contexto, convém notar que os esquetes do PSDB associando Gilberto Kassab a Celso Pitta/Maluf/Quércia, e jogando luzes sobre a imagem coerente de Geraldo Alckmin, não dão a tônica à edição mais longa da propaganda do tucano. Dentro do blocão gratuito de meia hora, o candidato, irredutível ao discurso do médico que teve a felicidade de ser governador, fala em primeira pessoa. Nessa hora, nada de "contracenar" com ações muito agressivas. Nada de enfocar aumentos de ônibus na gestão Kassab. Melhor delegar a tarefa do ataque a locuções de terceiros.Kassab faz que não liga. Seu foco nominal continua a ser Marta Suplicy, mas um recado em tom "sou-do-povo", sem se dirigir a A ou B, joga a carapuça ao alcance do tucano: "Tamo no caminho certo", pronuncia o prefeito da vez. "Ma peraí, não é tacando pedra no trabalho dos outros (...) que nós vamos melhorar as coisas", conclui. E dá-lhe José Serra na fita, sempre ao seu lado, cortando fitinhas em inaugurações Paulicéia afora.Povo por povo, todos os candidatos têm sempre um time de anônimos do tipo baixa renda que aparece ali para louvar as qualidades de uns e derrubar os louros alheios - e o adversário é necessariamente Marta, Kassab ou Alckmin: Maluf nunca foi tão poupado. Nesse quesito, a propaganda do PT acerta no formato. É Marta sem terninho, modelinho básico, blusa amarrada em torno do pescoço e laquê já murcho, a ouvir a voz do povo. É evidente que a edição se encarrega de filtrar a figuração que lhe convém, mas entre os aglomerados ao alcance da câmera é possível flagrar aqueles sujeitos que imploram pelo foco, na linha "filma-eu, tio". E figurante contratado, você sabe, é sempre alertado pelo diretor de cena a jamais olhar para a câmera.Se a questão é encenação e close, fique com o ator que bate no peito para dizer que ama São Paulo e que "Maluf é o cara"."E quem disse que só tem um jeito de discursar?", pergunta-se a Soninha. Aquela toada de conversa informal, boa para início de campanha, vai se perdendo, e cansa, quando repetida à exaustão.

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