Ata secreta revela início da reação militar no Araguaia

Médici ordenou construção de batalhão em janeiro de 70

Marcelo de Moraes e Leonencio Nossa, O Estadao de S.Paulo

26 Março 2009 | 00h00

O Exército começou a montar uma base antiguerrilha no Araguaia dois anos antes dos combates com o movimento armado do PC do B. Uma ata da reunião do Conselho de Segurança Nacional (CSN), divulgada pelo Arquivo Nacional, revela que em janeiro de 1970 o governo do general Emílio Garrastazu Médici ordenou a construção do Batalhão de Infantaria de Selva, em Marabá, cidade no sul do Pará.O encontro do conselho, órgão que assessorava o presidente, ocorreu no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 1972, oito meses depois do início oficial dos combates. O enfrentamento entre as Forças Armadas e os comunistas resultou na morte de 58 guerrilheiros. Os números de militares e camponeses mortos ainda são imprecisos.A propaganda comunista pós-guerrilha divulgava com estardalhaço que os militares tinham construído o batalhão de Marabá por causa da resistência e grandiosidade da guerrilha. É uma versão pelo menos incompleta. As primeiras operações na região começaram em 1970. A ata histórica reforça a versão de que os militares estavam atrás da guerrilha desde a queda do comunista Carlos Marighella (1911-1969), líder da Aliança Nacional Libertadora (ALN), morto em uma emboscada em São Paulo. "Um documento que estava com o Marighella fazia referência a uma grande área de guerrilha", relatou ao Estado o tenente-coronel da reserva Lício Augusto Maciel, pioneiro na busca de guerrilheiros. Foi ele quem encontrou os primeiros indícios da guerrilha ao tomar o rumo da estrada Belém-Brasília. MARABÁOutra ata analisada pelo Estado dá detalhes de uma reunião do CSN, em 30 de outubro de 1970, em que o presidente Médici decide classificar Marabá, a principal cidade da guerrilha, como área de segurança nacional. Estava em jogo também a construção da rodovia Transamazônica, que ligava o Nordeste ao Norte e cortava o município.No documento de cinco páginas, o então secretário-geral do conselho, João Figueiredo, solicita a inclusão de Marabá na lista de prioridades do regime alegando que a cidade é caracterizada por "graves tumultos eleitorais", acolhe "atividades de maior interesse da segurança nacional", apresenta "condições sociais de fácil exploração pelos elementos subversivos, tendo em vista a perturbação da ordem" e tem "condições estratégicas e táticas de interesse". Médici aceitou os argumentos e decretou a área de segurança.CASSAÇÃOA ata da reunião de 4 de dezembro de 1972 registra o pedido de Figueiredo para o presidente cassar o mandato do deputado estadual do Pará Osvaldo dos Reis Mutran, da Arena. Ele afirma que Mutran desenvolvia atividades "criminosas" como "tentativa de morte, roubo, acoitamento de bandidos e expedições de jagunços armados" para se apoderar de terras na região. Pede, ainda, o fechamento da Câmara Municipal de Marabá, controlada politicamente por Mutran.O deputado, segundo Figueiredo, teria colocado obstáculos para a construção do Batalhão de Infantaria de Selva em Marabá. Mutran teve o mandato cassado por dez anos. Lício relata que esteve nas fazendas do deputado e presenciou trabalho escravo. "Eu tinha acesso porque me apresentava como engenheiro da Embratel e todos queriam uma antena transmissora perto de suas propriedades", conta. "Certa vez reclamei com um capataz da fazenda das condições que viviam os trabalhadores. O pessoal estava muito sofrido."

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