DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

‘Assumindo o Temer, continua a pressão’, diz coordenador do MBL

Especialista em adjetivos e candidato a vereador, líder do Movimento Brasil Livre aposta que impeachment ganha força

Entrevista com

Fernando Holiday

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2016 | 20h00

Eduardo Cunha: “pilantra”.

Lula: “chefe de uma organização criminosa”.

Dilma Rousseff: “incompetente e mentirosa”.

Aécio Neves: “um péssimo opositor”.

Geraldo Alckmin: “incompetente na crise hídrica, um desastre na saúde e na educação”.

Fernando Haddad: “o pior prefeito da história de São Paulo”.

Zumbi dos Palmares e Hitler: “homens bem terríveis”.

Adjetivos são uma especialidade do estudante de Direito e já autodeclarado candidato a vereador Fernando Holiday, um dos coordenadores do Movimento Brasil Livre, que neste domingo, 13, sai às ruas, mais uma vez, para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

“Vai ser uma das maiores manifestações que já tivemos”, acreditava ele na tarde da quarta-feira. “É mais um passo para o impeachment ganhar força. Assumindo o Temer, continua a pressão para as reformas necessárias.”

Aos 19 anos, negro, pobre e homossexual, como sempre gosta de frisar, Fernando Souza Bispo alcunhou-se Holiday no começo do MBL. Queria criar um personagem que é ele próprio, como garante, e homenagear Billie, a cantora americana de jazz. Holiday é ilustrado, bem informado, bom de conversa e prenhíssimo de opiniões – até absurdas, como a que compara, sem nenhum rubor, Zumbi dos Palmares, século 17, e Adolf Hitler, século 20. 

O slogan “Esse impeachment é meu” está em cartazes e camisas de propaganda na sede do MBL – onde o também chamado Holi passa algumas horas de seu tempo, principalmente às vésperas de manifestações. 

A sede fica em um conjunto de três salas em um prédio da avenida Brigadeiro Luiz Antônio, próximo ao Teatro Paramount. Não há barulho, agitação, burburinho, nem nada do que se costuma imaginar em entidades do gênero em dias que antecedem a pretendida derrubada do poder – é assim que eles veem “o processo”. 

Na sala em que Holiday recebeu o Estado, duas moças e três rapazes trabalhavam em seus laptops. Uma delas fazia, ao celular, uma cotação de preços para o aluguel de pontos de internet para a logística da manifestação.

A sede vizinha ao teatro foi cedida ao MBL, sem ônus, pelo produtor de vídeos Alexandre Santos, engajado e entusiasmado com a revolução em marcha, palavras dele, e o delenda Dilma Rousseff. Santos e seu sócio Frederico Rauch são os documentaristas do MBL. Já gravaram, ele informa, inimagináveis três terabites de imagens das manifestações contra o governo petista. “O registro só acaba quando a Dilma cair”, disse Santos, que tem 27 anos e largou duas faculdades em troca da profissão. E se ela não cair? “Caindo ou não caindo, documentado está”, respondeu. 

Holiday pede desculpas pelo atraso. Parece mais jovem que seus 19 anos. Cumprimenta com firmeza, olhando nos olhos, e se ajeita, no canto à direita, no largo sofá de dois lugares. Conta do pai, o garçon Everaldino Bispo, que desapareceu em abril de 1997, numa viagem entre São Paulo e Minas, quando o filho único ainda não havia completado oito meses. Nunca mais dona Mara e Fernando souberam dele. 

Debatedor. Hoje aposentada, aos 63 anos, dona Mara trabalhou como auxiliar no hospital da USP, onde o garoto nasceu, em setembro de 1996. Criou-o, com a ajuda da família, entre a periferia da zona oeste de São Paulo e Carapicuíba, na Grande São Paulo, onde mora até hoje. 

Fernando estudou em escola pública, e foi pobre sem passar necessidade. Jeitão sossegado e caseiro, queria estudar Medicina. No fim do ensino médio – é ele que está contando – descobriu-se um aluno aplicado e um bom debatedor. Leu, com atenção, a literatura indicada para o vestibular. É capaz, por exemplo, de dizer alguma coisa coerente sobre Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou O manifesto comunista, de Marx e Engels, “um grande e lindo sonho utópico, totalmente distante de qualquer realidade”. 

Sem problemas em declarar-se à direita, Holi rotula-se filosoficamente como “um liberal radical”, pelo Estado mínimo e pela economia de mercado. “O que me move é ter um país em que os pobres possam sonhar de forma grande”, disse. O livro que fez a sua cabeça foi As seis lições, do economista e filósofo austro-húngaro Ludwig Von Mises (1881-1973). Lê-se na Wikipédia que Mises considerava a liberdade econômica como o maior suporte da liberdade individual. Atrás do sofá, à direita, em cima de um aparelho de som 3 em 1, há um pequeno cartaz pedindo “Menos Marx, mais Mises”. 

Se deixar, Fernando Holiday perora, sobre quase tudo que sabe, ou acha que sabe, ou que nem sabe, mas desconfia. Como gostava “de questionar” – explica –, preparava-se para se dar bem nas controvérsias com professores e colegas. Foi ajudado pela voz de locutor, pela facilidade de formular o discurso, organizando ênfases e gestos. Passou em dois vestibulares – para Filosofia, que acabou por não cursar – e optou por gravar-se em vídeos para o Facebook, fazendo discursos irreverentes e provocadores que atiçaram e ainda atiçam muita polêmica. 

Um deles, sobre a campanha do Passe Livre, é que o levou ao MBL, a convite, segundo diz. Outro, atacando violentamente o sistema de cotas e o movimento negro, instigou respostas igualmente odientas. O rapper Emicida é outro de seus alvos. Se modelo há para o que se vê, ele conta que a culpa é de Martin Luther King, o líder americano da luta contra o racismo. Já assistiu “dezenas de vezes” ao “I have a dream”, sem prejuízo de outros discursos. “Tento aprender”, diz, sem se encabular. Grava, hoje, cinco vídeos por semana. São dezenas deles, verdadeira metralhadora verbal disponível em seu Facebook (45 mil seguidores), e no “Inimigos públicos”, que divide com o amigo Kim Kataguiri, outro dos coordenadores do MBL. Também compartilham o quitinete em que moram, numa rua próxima da sede. 

Holi já fez sua estreia parlamentar – um breve discurso que fez no Congresso, a convite, nos tempos do acampamento pró-impeachment, em Brasília, em novembro passado. Terno, gravata e petulância, que lhe sobra, atacou os quatro convidados que o precederam, “o Estado gigantesco e obeso” e “a esquerda que só sabe reclamar e se vitimizar”. Disse, ainda: “Na condição de negro, pobre, homossexual, não me vitimizo. Quero lutar, quero alcançar meu sucesso e não me rastejar atrás do Estado”.

Holiday começou a estudar Direito neste começo de ano, com uma bolsa integral do Instituto Ling. Está nas mãos do Instituto de Direito Público (IDP), do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. (Também é fã, ardoroso, do juiz Sérgio Lava Jato Moro). Com a “facu” e o MBL – que lhe dá uma ajuda de custo de R$ 500 mensais –, Holi ficou sem tempo para ter um namorado. “No momento estou livre”, contou. 

Já decidiu que será candidato à Câmara Municipal de São Paulo nas eleições deste ano – “para defender a pauta do MBL”. Crítico dos gastos excessivos dos vereadores, prometeu, na entrevista da quarta-feira: “Vou cortar dois terços da verba de gabinete e metade do meu salário”. Quem viver, verá. 

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