Associação entre Tancredo e governo Lula é 'forçada', diz Ricupero

Ex-ministro disse que a frase de Dilma foi uma 'mea culpa' do PT por não apoiar Tancredo

Bruno Siffredi, do estadão.com.br

07 de abril de 2010 | 13h09

O embaixador e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, autor do livro "Diário de Bordo: A Viagem Presidencial de Tancredo", afirmou nesta quarta-feira, 7, em entrevista concedida ao estadão.com.br, que considera "forçado" associar o legado de Tancredo Neves ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como fez na terça-feira, 6, a pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff. Ricupero lembrou que o partido de Dilma foi contra a eleição indireta para presidente que conduziria a chapa Tancredo-Sarney à vitória, em 1985, e disse que a frase da ex-ministra da Casa Civil é "uma forma indireta de fazer uma mea culpa" pela posição do partido na época.

 

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Na terça-feira, 6, a pré-candidata do PT foi homenageada pela Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), em Minas Gerais, e disse, durante sua palestra no teatro municipal da cidade, que o governo Lula realizou "na prática" o sonho do ex-presidente eleito, avô do tucano e ex-governador de Minas, Aécio Neves. "O governo Lula do qual me orgulho, repito, de ter feito parte, realizou na prática o sonho de Tancredo Neves, ou melhor dizendo, começou a realizar o sonho de Tancredo Neves", disse Dilma.

 

"O PT expulsou os deputados que votaram a favor dele" na eleição indireta de 1985, lembrou Ricupero, ressaltando que "vários deles tiveram a carreira política liquidada" após a expulsão. O embaixador disse que "a orientação de Tancredo", de quem foi assessor internacional entre 1984 e 1985, "sempre foi centrista" e que seus verdadeiros herdeiros políticos são Aécio Neves e o senador Francisco Dornelles (PP-RJ).

 

Segundo o ex-ministro da Fazenda no governo Itamar Franco (1994), o "lado positivo" da declaração feita pela ex-ministra da Casa Civil durante sua visita a Minas Gerais é que "é uma forma indireta de fazer uma mea culpa", uma maneira de admitir que "o PT errou ao não apoiar o Tancredo". O embaixador explicou que, em 1985, o PT "sabia que não havia risco" de Tancredo perder as eleições para Paulo Maluf, candidato da situação, e "nessa atitude do PT", que orientou seus deputados a se abster da votação, "houve um cálculo de tipo pouco admirável". "O PT se beneficiou sem se comprometer." Mais tarde, acrescenta o embaixador, o partido repetiria a mesma atitude na votação que homologou a Constituição de 1988 e ao se manifestar contra o Plano Real e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal.

 

"Historicamente, o elenco de decisões deles (PT) não é feliz. Na maioria das decisões recentes, eles se situaram do lado errado. Eles até reconheceram publicamente depois. Lula reconheceu que o PT se equivocou no caso da Constituição", disse Ricupero, para quem, no entanto, "o fato fica". O ex-ministro pergunta "que garantia existe" de que o PT esteja escolhendo as posições corretas atualmente, em vista do retrospecto do partido. "O padrão das decisões deles é errado."

 

Sobre o "sonho" de Tancredo citado por Dilma, o ex-ministro lembrou que o País tinha dois problemas "a curto prazo" no período em que Tancredo disputou a Presidência: a dívida externa e a inflação. "Esses dois problemas começaram a ser resolvidos com o Itamar Franco e o FHC", lembrou. "Esses eram os problemas do Tancredo", observou Ricupero.

 

O livro "Diário de Bordo: A Viagem Presidencial de Tancredo", lançado em março deste ano, para coincidir com as celebrações pelo centenário do político mineiro, narra a viagem para o exterior realizada por Tancredo Neves, então recém-eleito presidente do Brasil, em janeiro de 1985. O mineiro partiu com uma comitiva integrada, entre outros, por Ricupero, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, a primeira-dama, d. Risoleta, e seu neto, Aécio Neves, em uma viagem que acabaria entrando para a história como os últimos momentos do presidente eleito, que faleceria às vésperas da posse, em 21 de abril de 1985.

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