Associação Brasileira de Ciência Política faz carta a Maia contra distritão

Assinado por 180 cientistas sociais, documento afirma que modelo vai fragilizar ainda mais os partidos políticos e encarecer as campanhas eleitorais

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2017 | 14h29

A Associação Brasileira de Ciência Política vai entregar nesta segunda-feira, 21, ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), um manifesto contrário à criação do distritão.

+ Rodrigo Maia defende adoção do sistema distrital misto em 2022

+ Fundo de R$ 3,6 bi para eleições está em sintonia com grandes democracias, diz Vicente Cândido

Segundo o documento assinado por 180 cientistas sociais das principais universidades brasileiras, a implantação do distritão, prevista no projeto de reforma política que tramita no Congresso, vai fragilizar ainda mais os partidos políticos, encarecer as campanhas eleitorais, reduzir a qualidade da representação política e beneficiar políticos profissionais, em especial aqueles que contam com maior acesso a recursos financeiros.

Leia a íntegra do manifesto.

Ao Excelentíssimo Senhor Rodrigo Maia (DEM-RJ), Presidente da Câmara dos Deputados (Brasília, DF):

Nós, estudiosos da ciência política brasileira, vimos por meio desta manifestar posição contrária à adoção do modelo de sistema eleitoral denominado “distritão”, que se encontra mais uma vez em discussão nesta Casa.

A introdução do distritão nas eleições para a Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores representará um verdadeiro retrocesso institucional. Com o fim do voto de legenda e da transferência de votos dentro das agremiações partidárias, os candidatos correrão por conta própria, a título individual, enfraquecendo os partidos políticos e em nada contribuindo para minorar o personalismo na corrida eleitoral. Além disso, diferentemente do atual modelo, milhões de votos serão jogados fora, visto que somente serão válidos os votos dos eleitos.

Mesmo com as novas regras que regulamentam o financiamento de campanhas, há indícios de que o distritão acarretará o aumento dos custos das campanhas eleitorais, pois, sem incentivo algum para a cooperação dentro dos partidos, os candidatos necessitarão de maior exposição individual. Ademais, facilitará o renascimento de oligarquias regionais e contribuirá para a diminuição da qualidade da representação política, ao proporcionar maiores condições de vitória a concorrentes sem experiência parlamentar.

Se a necessidade de uma reforma política surge do diagnóstico de que os partidos são frágeis, a adoção do distritão parece ter como objetivo fragilizá-los ainda mais, interessando a certos segmentos da classe política profissional, em particular àqueles com maior facilidade para dispor de vultosos recursos para suas campanhas. Nesse sentido, observamos com preocupação a possibilidade de sua implantação e reiteramos nossa posição contrária à sua propositura.

Associação Brasileira de Ciência Política

 

Mais conteúdo sobre:
Rodrigo MaiaReforma Política

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.