Assembleia de SP gasta R$ 553 por ligação a call center

Atendentes recebiam um telefonema por dia; serviço foi cancelado por falta de interesse público

Fábio Leite, Jornal da Tarde

01 de março de 2010 | 12h33

O objetivo era “estreitar o relacionamento” com o eleitor paulista, mas o resultado pode ter efeito contrário. Parecer da Secretaria Geral Administrativa (SGA) da Assembleia Legislativa, obtido pelo Jornal da Tarde, revela que cada ligação recebida pelo serviço de call center 0800, criado pela Casa para atender à população do Estado, custou R$ 553,07 para os cofres do Legislativo, mais do que um salário mínimo (R$ 510).

O cálculo foi apresentado ao presidente da Assembleia, Barros Munhoz (PSDB), em novembro do ano passado, como argumento para rescindir o contrato no valor de R$ 6,6 milhões com a empresa Teleparticipação Assessoria, após 11 meses de operação do serviço. Ratificada pela Mesa Diretora no dia 11 daquele mês, a rescisão virou alvo de inquérito civil no Ministério Público Estadual, que investiga acusação de “calote” do Legislativo apresentada pela empresa de call center (leia ao lado).

 

O custo elevado do serviço, que supera de longe tarifas de planos de telefonia, é resultado de uma estimativa feita pela Assembleia no edital de licitação, em 2006, que não se confirmou. Em seu parecer, o secretário-geral administrativo, Celso Pinhata Júnior, relata que a Assembleia esperava receber 3,7 mil ligações por dia, mas registrou apenas 908 chamadas entre 18 de dezembro de 2008 e 7 de abril de 2009, ou seja, 13 ligações por dia, considerando apenas os dias úteis do período.

 

Criação do ‘pai’ do anexo

 

A Central de Atendimento ao Cidadão (CAC), como é chamado o serviço, foi ideia do ex-presidente da Assembleia, o atual secretário municipal de Gestão e Desburocratização, Rodrigo Garcia (DEM), o mesmo que iniciou a polêmica construção do anexo de gabinetes da Casa, suspeita de superfaturamento - ele nega irregularidades.

 

A licitação foi feita por Garcia em junho de 2006, mas o serviço só foi inaugurado na gestão do ex-presidente Vaz de Lima (PSDB), em 17 de dezembro de 2008, dias antes do recesso parlamentar que foi até fevereiro de 2009. O contrato foi julgado regular pelo Tribunal de Contas do Estado.

 

Durante quatro meses, a CAC funcionou com 12 pontos de atendimento (24 operadores divididos em dois turnos) entre 9h e 20h. Isso significa que os funcionários atendiam, em média, uma ligação por dia. Alegando baixa demanda, a Mesa Diretora reduziu a partir de maio de 2009 o número de postos para dois e o valor do total do serviço para R$ 2,7 milhões. Em novembro veio a rescisão, “por ausência de interesse público na sua continuidade”.

 

Divulgação

 

Dono da Teleparticipação, o empresário João Ricardo de Jesus disse que a baixa demanda do serviço 0800 era reflexo da falta de divulgação. “Foi uma inauguração fechada, dentro da Assembleia, e no período de recesso parlamentar. Isso mostra que o serviço foi boicotado desde o início. Eles não quiseram divulgá-lo”, afirmou. “Como alguém vai ligar para um lugar que sequer sabe que existe?”

 

Abordado pela reportagem no corredor da Assembleia semana passada, o 1º secretário da Casa, Carlinhos Almeida (PT), afirmou que a atual Mesa Diretora chegou a divulgar o serviço de call center pela TV Assembleia, mas que, nem assim, o número de ligações aumentou. “Reduzimos os pontos de atendimento e vimos que ainda assim não havia demanda que justificasse o valor do contrato. É um serviço necessário e interessante para se aproximar do cidadão, mas o resultado era desproporcional”, disse. Segundo ele, a Casa pagou à Teleparticipação R$ 680 mil.

 

Novo call center?

 

Embora a CAC tenha funcionado por 11 meses, o site da Assembleia informa que o serviço de call center está em “período experimental”. A reportagem chegou a ligar para o 0800-77-25377, há cerca de duas semanas, e ouviu de um atendente que se identificou como funcionário da Assembleia temporariamente deslocado para a função que realmente quase não há ligações para a CAC, mas que, mesmo assim, o serviço seria terceirizado novamente. A informação não foi confirmada pela Assembleia.

 

Entenda o Caso

 

Junho/2006: O ex-presidente da Assembleia, Rodrigo Garcia (DEM), realiza uma licitação para contratar firma responsável por implementar uma Central de

Atendimento ao Cidadão (CAC)do Legislativo, com 12 pontos de atendimento (24 operadores em dois turnos), entre 9h e 20h

 

A concorrência foi vencida pela empresa gaúcha Teleparticipação Assessoria, que apresentou preço menor que a concorrente do Distrito Federal, Montana Soluções

 

Março/2008: O ex-presidente Vaz de Lima (PSDB) assina o

contrato de 30 meses no valor de R$ 6,6 milhões com a Teleparticipação para implantação do serviço e operação com a mão-de-obra

 

Dezembro/2008: a CAC inicia a operação primeiramente por meio do PABX da Assembleia (3886-6122) e posteriormente no 0800-77-25377

 

Abril e Maio/2009: O presidente Barros Munhoz (PSDB) reduz o serviço de 12 para 2 pontos de atendimento alegando baixa procura. Contrato cai para R$ 2,7 mi

 

Novembro/2009: Assembleia rescinde contrato com a Teleparticipação, informando que cada ligação custava R$ 553,07. Estimativa era de 3,7 mil chamada por dia, mas, segundo dados de abril da Casa, eram 13 chamadas diárias, ou 6,5, em média, por atendente

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