Assassinato de camponês desatou caça a guerrilheiro

Rosalindo de Souza virou alvo de militares após a morte do camponês João Pereira em uma emboscada

Leonencio Nossa, ENVIADO ESPECIAL A SÃO GERALDO DO ARAGUAIA (PA)

21 de setembro de 2014 | 03h00

O guerrilheiro Rosalindo de Souza, o Mundico, virou alvo de militares e de parte dos moradores da região do Pau Preto após a morte do camponês João Pereira, de 21 anos. Pelos relatos e documentos, ele foi o autor do disparo que matou o rapaz. No momento da emboscada, em 17 de agosto de 1972, o camponês estava em companhia do amigo e também agricultor Paulo dos Santos, hoje com 63 anos. 

Única testemunha viva do episódio, Santos foi localizado na semana passada pelo Estado num restaurante de estrada em São Geraldo do Araguaia. “Por volta das 6 da tarde, a gente passava por uma roça de mandioca para caçar um capelão (espécie de macaco guariba) quando alguém atirou. O tiro acertou o peito, no lado esquerdo, do Joãozinho”, relata. “Aí dois homens saíram de uma moita. O homem que atirou, o Mundico, e um outro”, diz. “Mundico puxou minha cinta e tomou minha faca e minha arma.” Santos foi poupado pelos guerrilheiros.

Ao receber a notícia da morte do filho, José Pereira reuniu amigos e os demais filhos e saiu à caça de Rosalindo. O grupo não achou pistas do guerrilheiro. O general Antonio Bandeira chegou a propor ao pai que perdera o filho atirar num guerrilheiro preso como vingança. Pereira não teria aceitado.

Irene, filha dele e irmã de João, conta que a família desistiu da vingança. “Nesse tempo, os guerrilheiros estavam escondidos no mato. A Dina esteve na casa de vizinhos e disse que tinha sido contra a decisão do Rosalindo de matar meu irmão”, relata. 

Futebol. João Pereira e Rosalindo eram amigos no Pau Preto. Na época, participaram da abertura de um campinho de futebol. “Quando Rosalindo matou João, o campinho ainda não estava pronto”, diz o agricultor Jota Pereira, de 67 anos, irmão do camponês morto. Ele mora num assentamento rural no interior de Marabá. “O campinho serviu para o helicóptero do Exército descer e pegar o corpo do meu irmão.”

Parte da família de João mora em Eldorado dos Carajás, cidade que ficou marcada pelo massacre de um grupo sem-terra, em 1996, pela Polícia Militar. Lá vive Bonfim Pereira, de 87 anos, mãe do camponês morto. Ela diz não ter mágoa de Rosalindo, mas lembra que a morte do filho “acabou” com a família.

Bonfim criou dois filhos de João – Gentil e Maria Bonfim. Há poucos anos, Gentil foi assassinado. Ela afirma ter pressentido a morte do filho. “O cabeça (dos militares) falou com o José, meu marido, que queria comprar umas galinhas para fazer janta. Depois, outro militar disse: ‘O senhor me dá um rapaz do senhor para me levar até o Jabuti Cru?’ O José mandou o João ir. ‘Ele vai.’ Aí eu fiquei em casa chorando. A gente era gente mansa. Dei a chorar”, conta. 

O chefe da equipe era o major Lício Augusto Maciel. Naquele momento, o sítio de José Pereira já era usado pelos militares como base improvisada. “Não tenho medo de falar. O barracão do meu pai era ponto de apoio do Exército. Ou apoiava ou ia para a taca, apanhava até a morte”, relata Irene Pereira, filha do agricultor. “Eles (guerrilheiros) ficaram com raiva da gente porque o Exército estava dentro da nossa casa.”

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