Asilado na França, irmão de Celso Daniel quer voltar

Únicos brasileiros reconhecidos pelo governo francês como refugiados, Bruno, sua mulher e filhos afirmam que têm medo de retornar ao País

Reali Júnior, PARIS, O Estadao de S.Paulo

16 de janeiro de 2008 | 00h00

Os dois únicos brasileiros reconhecidos pelo Ofício Francês de Proteção aos Refugiados e Apátridas (OFPRA), os ex-petistas Bruno Daniel e Marilena Nakano, irmão e cunhada do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, assassinado em 20 de janeiro de 2002, estão querendo voltar ao Brasil. O casal vive uma situação esdrúxula no exterior, acompanhado de seus três filhos, desde março de 2006. Eles se encontram instalados na França como refugiados políticos, oficialmente reconhecidos pelo Estado francês. Isso ocorre em pleno regime democrático no Brasil, tendo sido conduzidos a essa situação durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito pelo PT, partido do qual eram militantes.A morte de seu irmão continua constituindo um mistério, depois de ter sido relacionada a um esquema de arrecadação de propina entre empresas de ônibus, de construção civil e de coleta de lixo de Santo André para financiar as campanhas eleitorais do partido de Lula. Bruno e Marilena não abdicam, contudo, do direito de saber toda a verdade sobre a morte de Celso Daniel e pretendem levar a apuração até o fim. Em 2006, eles foram os dois únicos casos de brasileiros que receberam o título de refugiados políticos na França. As autoridades francesas não hesitaram em atender ao pedido de asilo do casal diante do relatório que cita até ameaças de morte.Duas cartas explicando as razões do interesse da família em voltar para o Brasil serão lidas amanhã, na Câmara Municipal de Santo André, às 14 horas, pelo advogado Hélio Bicudo, ex-vice prefeito de São Paulo e também antigo integrante do PT.O casal de universitários brasileiros - ele professor da PUC e antigo funcionário da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), e ela pesquisadora de sociologia e professora de didática - tem sobrevivido na França graças a bolsas de estudos de poucos meses, cujo prazo já terminou, e de pequenos trabalhos de consultoria para empresas francesas. Nesses dois anos eles e os filhos viveram em diversos locais, entre os quais um estúdio de 30 metros quadrados e uma casa em que conviviam com outras famílias de refugiados - uma tibetana, outra russa e uma terceira do Sri Lanka -, com a ajuda da instituição France Terre de Asile. Hoje, o casal e dois filhos moram numa residência um pouco mais confortável em Paris. O terceiro filho estuda na Alemanha. A família reunida decidiu tornar pública essa condição de exilada, em pleno regime democrático no Brasil, como expressão do desejo de retorno ao País desde que as circunstâncias sejam mais favoráveis. Essa decisão implica também a apuração do assassinato de Celso Daniel. Um dos nomes mais citados por Bruno como alguém que prometera ajudá-lo na elucidação do assassinato do prefeito de Santo André é o do chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho. Ele conhecia o teor do documento entregue ao Ministério Público que denunciava a relação entre o grupo político que participava do sistema de arrecadação de dinheiro para as campanhas políticas do PT e seu rápido enriquecimento. Esses documentos se encontram, hoje, nas mãos do Ministério Público, mas os advogados do empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, alegam inconstitucionalidade da investigação em uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) ainda em julgamento. Sombra era assessor de Daniel.

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