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Às vítimas: ‘para que pânico?’ A médicos: ‘Chega de frescura!’ A parentes: ‘Vão chorar até quando?’

Em vez de pular de palanque em palanque, o presidente Jair Bolsonaro poderia ir ao Rio Grande do Sul e à Bahia, que estão contratando contêineres refrigerados para acomodar corpos

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro disse que não se pode combater o vírus “de forma ignorante, burra, suicida”, mas, um ano e 260 mil mortes depois, não diz como deve ser, não dá nenhuma pista do seu “plano” nem anuncia quando irá de Estado a Estado, para dar uma bronca em pacientes, parentes, médicos, enfermeiras e funcionários de hospitais. “Para que pânico?” “Chega de frescura, de mimimi!” “Vão chorar até quando?” 

Poderia começar pelo Paraná, demonstrando impaciência e pedindo paciência às 800 pessoas com covid-19 que estão à espera de leitos de UTI ou da morte: “Para que pânico?” Depois, dar uma passadinha por Santa Catarina, para reclamar com mães, pais, irmãos, maridos, mulheres e filhos das dezenas de vítimas que morreram sem conseguir vaga na UTI: “Vão chorar até quando?” 

Em vez de pular de palanque em palanque, provocando ilusão e aglomeração, o presidente poderia dar uma esticada ao Rio Grande do Sul e à Bahia, que estão contratando contêineres refrigerados para acomodar corpos. Cara a cara, gritaria para médicos e enfermeiros enfrentarem o problema “de frente” e pararem com esse mimimi, só porque assistem, impotentes, exaustos, a mais e mais pessoas morrendo dia e noite. “Chega de frescura, de mimimi!” 

Essa gente não consegue entender que é só uma gripezinha e que está no finalzinho. E daí? Todo mundo vai morrer mesmo. O que o presidente pode fazer, coitado? O STF não deixa, os governadores só falam em isolamento e os idiotas querem vacina. Ele não é coveiro. E tem uma leitoa pururuca deliciosa esperando. Tchau! 

Com recordes diários, sistemas de saúde e funerários à beira do colapso, os governadores enfrentam tanto a pandemia quanto a resistência dos bolsonaristas ao lockdown e às medidas restritivas, enquanto as vacinas não vêm. Bem atrasado, o general da Saúde anuncia a Pfizer e a Janssen, mas a guerra é contra o tempo: quanto mais a vacinação demora, mais o vírus se espalha e gera novas variantes. O risco é se tornarem resistentes às vacinas já disponíveis. 

Não adianta ter restrições em São Paulo e não no Rio, no Paraná, e não em Santa Catarina, só no Ceará e Bahia, no Nordeste, e não no Amazonas, no Norte. E isso vale para o mundo. Se vários países fizerem tudo certo e o Brasil continuar fazendo tudo errado, pode se tornar o celeiro exportador de novas variantes e uma ameaça planetária. Mimimi? 

Se autoridades brasileiras seguiram o “Deus” Donald Trump e acusaram a China de ter intencionalmente criado o vírus e provocado a pandemia, que tal agora Pequim pagar na mesma moeda e acusar o presidente do Brasil de deixar o vírus correr solto, se multiplicar e sofrer mutações para destruir a humanidade? 

Na pandemia, o Brasil vive uma tragédia. Na economia, acaba de sair da lista dos dez países mais ricos do mundo, enquanto o presidente afugenta investimentos ao intervir politicamente na Petrobrás e impor constantes humilhações ao ministro Paulo Guedes e estimula tentativas de furar o teto de gastos. 

Não bastasse, Bolsonaro move mundos e fundos, GSI, AGU e as instâncias do Judiciário para bloquear as investigações que atingem o primogênito Flávio Bolsonaro, que se sente à vontade para comprar uma mansão de R$ 6 milhões em plena capital da República, sem explicar de onde vem a grana. O único cuidado foi buscar um cartoriozinho de Brazlândia, bem longe do centro, para esconder as peraltices. 

E não é que a mídia foi lá e descobriu tudo? Além de gerar pânico no País real pela pandemia, a mídia também gera pânico no mundo imaginário onde papai Jair dá de ombros para 260 mil mortos e só pensa em salvar um único pescoço: o do próprio filhote. O grito do senador Tasso Jereissati ecoa no País: “Tem de parar esse cara!”

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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