André Dusek/Estadão
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Cúpula do PT acata fala de Dilma e promete não tratar Levy como ‘judas’

Após presidente dizer ao ‘Estado’ que é ‘errado e injusto’ criticar ministro por medidas de reequilíbrio fiscal, dirigentes do partido assumem defesa mais clara do governo a fim de tentar isolar os ataques à política econômica às alas mais radicais

Vera Rosa e Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2015 | 18h43

Atualizado às 21h25

Brasília e São Paulo - Um dia após a presidente Dilma Rousseff dizer ao Estado que não se pode transformar o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em “judas” para ser malhado no 5.º Congresso do partido, de quinta-feira a sábado, em Salvador, a direção do PT e a corrente majoritária da legenda amenizaram as críticas à política econômica do governo.

Embora seja esperado que a resolução final da reunião contenha reparos ao ajuste fiscal, as declarações de Dilma e o pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que o PT “olhe para a frente” enfraqueceram as posições radicais.

“A maioria do partido não vai fazer isso (transformar Levy em ‘judas’). Temos que preservar o ministro”, disse o deputado estadual José Américo Dias (PT-SP), secretário nacional de Comunicação da legenda.

A ordem, agora, é reduzir a pressão sobre Levy, não personalizar as críticas e apresentar uma agenda “pós-ajuste”, com um cardápio de propostas para sair da crise. Mesmo assim, a cúpula do PT avisou ao Palácio do Planalto não ser possível impedir manifestações individuais e faixas de “Fora Levy” no evento.

Apesar dos pedidos de Lula e do recado claro de Dilma, setores do partido devem manter os ataques ao ministro. “Consideramos que a política de ajuste fiscal regressivo e recessivo inaugurada com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda coloca o PT contra a classe trabalhadora”, diz um documento assinado por líderes sindicais petistas, entre eles Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e João Felício, presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI), ambos muito próximos de Lula. 

Na tentativa de evitar os protestos contra o titular da Fazenda, o ministro da Defesa, Jaques Wagner, foi escalado para conversar com líderes do PT. “Levy está no caminho certo”, disse Wagner ao Estado. “Além de ajustar as contas e a economia, vai apontar novos caminhos para a retomada do desenvolvimento com crescimento e renda. Nós confiamos nele.”

A agenda pós-ajuste que o PT vai apresentar no 5.º Congresso prevê a defesa do imposto sobre grandes fortunas, da taxação de heranças e do lucro líquido das empresas. O PT também vai pregar a volta da CPMF. 

Sem pedras. “Não existe separação entre o partido e o governo”, afirmou Francisco Rocha, o Rochinha, coordenador da corrente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB), da qual Lula faz parte. Em carta enviada aos 800 delegados do encontro de Salvador, Rochinha lembrou que o ex-presidente também promoveu corte de gastos e disse que nenhuma tendência do PT pode se “arvorar” em criticar o ajuste porque todas estão presentes no partido, no governo e, portanto, têm “telhado de vidro”. 

“Por acaso José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência) não apoiam o ajuste fiscal?”, provocou o dirigente petista, em referência aos ministros da Mensagem ao Partido, segunda maior corrente petista, que lidera as críticas à política econômica de Levy, e da Democracia Socialista (DS), ala mais à esquerda da sigla. “Então, que não venham atirar a primeira pedra.” 

Na mesma linha, o ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (SP), do Movimento PT – fiel da balança em votações internas –, disse não se incluir entre os que querem malhar Levy. “Se temos de fazer reparos à política econômica, que façamos ao governo, porque, caso contrário, estaremos terceirizando as críticas.”

Integrante da Mensagem, o secretário de Formação Política do PT, Carlos Árabe, prevê a formação de “dois blocos” no encontro. “Um defendendo mudança na política e na estrutura partidária, e outro pela manutenção das posições conhecidas até agora, podendo até recuar na questão do financiamento empresarial”, provocou. “Nós queremos a mudança.”

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