Capítulo 11

Às vésperas de completar dois meses de mandato, Bolsonaro precisa de um 'Posto Ipiranga' na política

No vácuo da articulação política do Planalto com o Congresso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem sido tratado por colegas como uma espécie de 'primeiro-ministro'

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 18h15

Caro leitor,

A comunicação da equipe de Jair Bolsonaro anda mal das pernas. Mais do que isso, o presidente precisa de um “Posto Ipiranga” na política para salvar o governo dos tropeços. O apelido pop que na campanha de 2018 definiu o papel de Paulo Guedes, hoje ministro da Economia, sempre é lembrado no Congresso quando algum bombeiro tenta evitar que novos personagens joguem combustível na direção do Planalto.

Às vésperas de completar dois meses de mandato, o presidente que cultiva cliques nas redes sociais vira e mexe é obrigado a descer do palanque virtual para promover uma espécie de “freio de arrumação” e enquadrar o discurso de auxiliares. Não tem, no entanto, obtido muito sucesso nessa empreitada. 

Nem mesmo o “Brasil acima de tudo”, com “Deus acima de todos”, dá jeito nos escorregões da Esplanada. Ao contrário: sem pedir licença, o slogan de Bolsonaro quase invadiu, nos últimos dias, as salas de aula, como mostrou aqui a repórter especial Renata Cafardo. 

Após enviar e-mail a todas as escolas, pedindo aos diretores que os alunos fossem “perfilados” diante da bandeira do Brasil para cantar o Hino Nacional – com o “detalhe” de que o momento deveria ser gravado e o vídeo, enviado para o governo ­–, o ministro da Educação, Ricardo Vélez, recuou. Sob críticas,  Vélez retirou a solicitação para que fosse puxado o coro eleitoral do “Brasil acima de tudo”, mas manteve a recomendação para a filmagem dos alunos, “desde que precedida de autorização legal”. 

O desgaste poderia ter sido evitado, obviamente, com uma simples consulta à assessoria jurídica do MEC. Mas, também, se o governo tivesse uma política de comunicação que fosse além de tweets e recados contra adversários pelas redes sociais. Na prática, o que está em curso é um novo modelo do “nós contra eles” – agora, sob nova direção, como você pode ler aqui.

No vácuo da articulação política do Planalto com o Congresso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) tem sido tratado por colegas como uma espécie de “primeiro-ministro”. Conhecido pelo estilo “sem papas na língua”, Maia disse nesta terça-feira, 26, em seminário promovido pelo BTG Pactual, que Bolsonaro virou “refém do discurso de campanha” e também apontou erros na comunicação do governo. 

Os alertas não foram sem motivo. Principal fiador da reforma da Previdência no Congresso, Maia avaliou para a plateia de investidores que o Planalto precisa “organizar a política” e construir alianças, se não quiser ser derrotado.

“Hoje, eu digo que o governo tem o PSL na sua base e não tem mais partido algum”, afirmou o presidente da Câmara, em São Paulo, numa referência à sigla de Bolsonaro. Só faltou Maia citar aos representantes do mercado financeiro a máxima de Chacrinha, o velho guerreiro, segundo a qual “quem não se comunica, se trumbica!”.

Poucas horas depois, a 1.026 quilômetros dali, Bolsonaro promoveu uma reunião com 19 líderes de partidos na Câmara, no Palácio da Alvorada. O encontro foi convocado para debater a reforma da Previdência – enviada por ele ao Congresso, no último dia 20. A portas fechadas, o presidente admitiu que o governo tem “gordura para queimar” na proposta.

Em conversas com deputados, Maia também deu sinais de que, para a reforma avançar, o Executivo terá de ceder e mudar pontos polêmicos, como mostrou reportagem do Estado. Na lista das prováveis mudanças estão as regras que endurecem a obtenção de benefícios assistenciais para idosos de baixa renda e, ainda, para a aposentadoria rural.

Insatisfeitos com a falta de cargos, deputados e senadores também ameaçam não votar a reforma enquanto o governo não encaminhar ao Congresso o projeto que mexe na aposentadoria dos militares. O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, assegurou aos descontentes que o texto só não foi enviado ainda por uma questão de estratégia. O secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, afirmou, por sua vez, que, se a reforma da Previdência não for aprovada, “o País cai de cara na recessão”, em 2020

Nesse enredo pré-carnaval, o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro (Justiça) vai ficando em banho-maria. “Mas o governo não pode ser o samba de uma nota só nem o Brasil pode parar por causa da reforma da Previdência”, disse ao Estado Capitão Augusto (PR-SP), ao pregar mais atenção às medidas de Moro. “Entre a vida e a economia, ficamos com a vida”, emendou o deputado, que comanda a Frente Parlamentar da Segurança Pública.

Diante de tantos obstáculos no caminho do Planalto, sobrou até para o índio, chamado de “latifundiário” pelo secretário especial de Assuntos Fundiários, Luiz Antonio Nabhan Garcia. Presidente licenciado da União Democrática Ruralista (UDR), Nabhan é aquele que, na campanha de Bolsonaro, ficou conhecido por dizer que já tinha visto muito “pavão” virar “espanador”. O recado foi dirigido ao desafeto Onyx, que preferiu engolir em seco. Coisas da política.

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Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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