Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE

As testemunhas do enterro de Berbert

Três irmãs dizem que corpo de guerrilheiro foi sepultado perto do jazigo do pai, que morreu no mesmo dia; em 1992, comissão fez buscas em local incorreto

Alana Rizzo (textos), Wilson Pedrosa (fotos), Enviados Especiais, NATIVIDADE ,

14 de julho de 2012 | 17h46

A única busca pelo corpo do guerrilheiro Ruy Carlos Vieira Berbert não deu em nada. A missão da Comissão Especial de Mortos de Desaparecidos Políticos, em 1992, escavou o lugar errado. É o que sustentam três filhas de um morador da cidade que morreu na mesma noite que o então guerrilheiro do Movimento pela Libertação Popular (Molipo). Elas afirmam que o jovem foi enterrado no antigo cemitério da cidade, em uma sepultura logo na frente da do pai.

 

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Na semana passada, a Comissão da Verdade do governo federal reabriu as investigações sobre a morte do ex-guerrilheiro depois que o Estado revelou a existência de fotos inéditas de Berbert, comprovando que o governo militar sempre soube de sua morte em 1972, mas escondeu a informação de seus parentes. A Comissão também vai organizar nova busca pelos seus restos mortais.

Filhas de Domingos Nunes da Silva, Nair, Maria Helena e Eunice são testemunhas-chave da madrugada de 2 de janeiro de 1972, data da morte de Berbert, e do dia seguinte. Elas passaram a noite ao lado do pai, no antigo casarão colonial, localizado bem atrás da cadeia da cidade. Recordam de ouvir barulhos durante a madrugada e das últimas palavras do pai: “Estou acabando. Um jovem e uma mula também”.

Foi assim que o pai, já muito doente, faleceu. Eunice foi até a sua casa, do outro lado da quadra, avisar outros parentes que aguardavam notícias. “Ouvi um grunhido. O barulho até hoje não sai da minha cabeça. Na volta, passamos em frente à cadeia e o vi balançando”, conta.

A versão dos militares sustenta que Berbert se suicidou com uma corda que ganhou de presente de uma moradora da cidade. Com a notícia da morte de Berbert se espalhando pela cidade ainda na madrugada, começou uma romaria para ver o “terrorista” morto e para o velório de seu Domingos.

Os dois sepultamentos foram marcados para o mesmo horário, por volta das 17 horas. O antigo morador da cidade foi enterrado primeiro. Em seguida, o jovem forasteiro, registrado à época como João Silvino Lopes. No livro 001 do Cartório de Registro Civil da cidade constam os dois óbitos.

“Ele foi enterrado bem aqui”, aponta Maria Helena, em frente ao espaço onde hoje se encontra uma lápide branca. “Nada disso existia. Tinha apenas uma árvore e esse foi o problema. Arrancaram a árvore e o pessoal da comissão quis cavar perto de outra. Só que o lugar estava errado”, garante. Nair reforça a opinião da irmã: “Eles foram embora antes de terminar. Eles perguntavam para muita gente e acabaram ficando perdidos”.

As irmãs sabem, no entanto, que localizar os restos de Berbert não é uma tarefa fácil. “Era comum enterrar um corpo em cima do outro. Devem ter outras duas ou três ossadas na mesma sepultura”, comenta Helena. O coveiro da época já morreu, assim como outras diversas testemunhas da época.

Em 1992, a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos foi até Natividade tentar esclarecer a morte do jovem. Sem sucesso na busca pelo corpo, a família conseguiu o atestado de óbito de Berbert, assinado por um enfermeiro que já morreu, porém. Os familiares conseguiram cancelar o antigo registro em nome de João Silvino.

BERBERT VIROU ATRAÇÃO NA CIDADE

Quarenta anos após a morte de Ruy Berbert, Natividade, de 9 mil habitantes, ainda não conseguiu esquecer o acontecimento. Berbert virou atração durante os dias que passou na cadeia municipal. Os moradores conversavam com ele pela grade da cela, levavam comida, bebida, cigarro. De frente para a praça e para a igreja, hoje a cadeia virou um museu, que, no entanto, não faz nenhuma menção ao guerrilheiro ou à sua morte. / A. R.

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