'As ruas não estão pedindo um novo salvador'

O Movimento Passe Livre foi o desencadeador e a principal referência das manifestações de junho de 2013, que acabaram refletindo o descontentamento da sociedade com políticos e instituições públicas. Destacado integrante do movimento, o professor Lucas Oliveira comenta a forma como os protestos estão refletidos agora no debate eleitoral.

O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2014 | 02h02

Marina Silva tem sido apontada como a principal depositária das esperanças de mudanças que vieram dos protestos. Como vê isso?

O Movimento Passe Livre é apartidário. Em relação às eleições, o que fazemos é a análise das propostas na área de transporte. De maneira geral, a candidatura à Presidência da República tem pouca influência na questão do transporte municipal. Mas ele poderia encaminhar ações que levariam à tarifa zero, que é a nossa proposta. Nenhum dos três principais candidatos apoia isso, nem faz proposta no sentido de redução de tarifas - que foi o motivo inicial dos protestos em todo o País.

Qual candidato estaria mais próximo de ser o porta-voz do que as ruas disseram?

Nenhum. Bastar ver que nenhum estava na rua. Foi a população que saiu e conseguiu uma vitória histórica, que foi a redução de tarifas em várias cidades. Naquele momento, todos os grupos partidários foram obrigados a recuar perante a força dos manifestantes. PSDB, PSB, PT, PMDB, todos faziam parte de governos que aumentaram as tarifas e tiveram que voltar atrás.

Marina não estava nessas siglas.

Mas ela participa dos velhos esquemas de alianças partidárias. Hoje está no PSB, que fazia e continua fazendo parte do governo de São Paulo - um dos governos obrigados a recuar após os protestos. Neste ano o aumento das tarifas de transporte foi barrado pela Justiça em Belo Horizonte, cidade governada por Marcio Lacerda, do PSB, o partido que ela integra.

Você não vê novidade nessas alianças partidárias de agora?

Não. Continuam sendo alianças para ver como gerir o Estado e controlar a população. Os governos inicialmente tentam reprimir, depois procuram englobar as estruturas participativas e organizam milhões de reuniões que dificilmente encaminham as demandas populares. Por fim, se nenhuma das duas coisas dá certo e as manifestações permanecem, eles cedem.

As propostas de Marina de uma democracia mais direta não podem ser uma resposta?

É preciso deixar claro que as ruas não estavam pedindo por um novo salvador.

E quanto à ideia de melhorar as formas de ouvir a população?

O MPL não quer mais formas de ouvir a população. O que ele reivindica é a população decidindo diretamente. Se alguém ouve para depois executar, continua mantendo a população no papel de expectadora. O MPL defende a permanente mobilização das pessoas. Não acredita na via institucional, de cima para baixo. Se acreditássemos, estaríamos ajudando a construir alguma candidatura. E não estamos fazendo isso. / R.A.

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