As ruas, as casas e as várias crises

A crise mais visível é a do governo e a de seu partido. Estaria aí a obrigação de apontar saídas. Mas não parecem capazes. A crise mais séria é a que causa danos sociais concretos e reside na economia; o País que volta a temer o desemprego, a falta de investimentos; o fantasma da inflação que se instala e leva à concentração de renda e à exclusão social; a precariedade dos serviços. Seria papel da oposição mostrar alternativa. Mas, na carona, assiste ao incêndio dos tanques.

Carlos Melo, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2015 | 21h55

Há também a crise moral, revelada pelos escândalos de corrupção. Traz a fúria, pede cabeças e justiçamentos, mas pouco toca nas mazelas da cultura: a remoção de pequenos privilégios cotidianos, a burla das leis, das normas, a desigualdade de direitos e oportunidades. Seria o caso de uma revolução de costumes, mas estamos longe disto. São várias as crises, estão em todo canto.

Nesse clima, multidões vão às ruas. Outros tantos observam de casa, pela internet. Todos, igualmente, vivem o mal-estar. O descontentamento e a revolta são traços do mundo contemporâneo e daí deriva a crise cíclica de representação: a política não responde à sociedade, a sociedade não constrói a política. Atônito, o sistema político bate cabeça e, no Brasil, gera a besta híbrida do presidencialismo sem poder e do parlamentarismo sem legitimidade. Ambos carecem de credibilidade. O animal híbrido, como se sabe, é estéril. 

Preenchidas pelo vazio, as ruas querem urgência. Mas, fragmentadas, não apontam rumos. Perde-se o ímpeto, não pela solução, mas pelo tédio. O “Fora Dilma sem futuro” é, ao final, nada se nem sequer se imagina quem assumiria o leme dessa nave. A crise de verdade é a ausência de lideranças – nas ruas e nos partidos –, não apenas morais, mas capazes de intuir caminhos, estabelecer acordos, construir novo desenho político, um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social, na direção do amanhã. 

Resolver o quiproquó do Parlamento não contentará as ruas. Tampouco agradar às ruas pelas mãos do populismo eliminará, no longo prazo, o mal-estar que as ruas expressam. A crise maior está na incapacidade de apontar a rota da fuga que nos leva para frente. No fundo, os que foram às ruas sabem disto. E os que não foram também.


CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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