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As renas voadoras e o delírio do voto impresso

Temos demandas urgentes, e a urna eletrônica, que nunca deu problema, não está entre elas

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2021 | 03h00

Papai Noel existe e singra os céus em seu trenó de renas voadoras. Houve fraude nas eleições americanas de 2020. Só o voto impresso pode evitar que aconteça o mesmo no Brasil em 2022.

Em 2020, alguns americanos acreditaram em renas voadoras – ou melhor, no delírio de Donald Trump sobre fraude nas urnas. Trump passou. A democracia americana continua. Nem Trump impediu que o debate eleitoral de 2020 fosse um dos mais interessantes dos últimos tempos.

Uma das melhores coisas das eleições nos Estados Unidos são as primárias. Elas existem desde o início do século 20 – mas, como lembra o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, professor do Insper, só em 1972 adquiriram o formato atual. Carlos Eduardo, que cobriu várias campanhas americanas como correspondente internacional, é o entrevistado do minipodcast da semana.

As primárias americanas possibilitam que os pré-candidatos apresentem projetos para o país. Paralelo à polarização, o debate de 2020 foi especialmente rico. Joe Biden venceu com seu progressismo moderado, herdeiro de Barack Obama. Ficou no meio do caminho entre Bernie Sanders, que empolgou o eleitorado esquerdista, e a ala moderada do Partido Republicano, que entrou na conversa para dizer que nada tinha a ver com Trump. O eleitor americano acompanhou o debate em artigos de opinião publicados nos principais jornais e fez sua escolha.

Num movimento que pode ser o embrião de um debate à americana, o PSDB decidiu, neste ano, fazer prévias para escolher o representante tucano na eleição presidencial. Três pré-candidatos já estão na rua.

João Doria, governador de São Paulo, percorre o País nos fins de semana, falando de vacina e da estratégia paulista de combate à pandemia. O primeiro ato de campanha de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, foi se declarar homossexual em entrevistas à TV Globo e à revista piauí – o que o colocou na disputa com um selo progressista, como Pete Buttigieg na eleição americana.

O senador Tasso Jereissati, zelador da tradição social-democrata do partido, quer ser o Biden tucano. Seu hino de campanha é a música Aquele Abraço, de Gilberto Gil, com o slogan “PresidenTasso” no refrão. É o PSDB tentando voltar aos anos 1980, quando era o favorito dos medalhões da MPB e Chico Buarque fazia os jingles de campanha de Fernando Henrique.

É possível que as prévias tucanas provoquem um debate semelhante ao das últimas primárias americanas? “Vejo a iniciativa com simpatia, mas com algum ceticismo, pois são culturas políticas muito diferentes”, diz Carlos Eduardo. 

Seria bom que o Brasil, para variar, assistisse a uma discussão séria sobre nossos problemas, envolvendo não apenas o PSDB, mas todos os partidos. Ainda há, no entanto, quem prefira combater renas voadoras. Como revelou o Estadão em furo de reportagem, o general Braga Netto e outros colegas do Exército embarcaram no delírio do voto impresso. Temos demandas urgentes, e a urna eletrônica, que nunca deu problema, não está entre elas.

Combater fraudes fictícias é como criar um escudo antiaéreo para impedir que Papai Noel voe sobre as chaminés. Além de golpista, a ideia é ridícula. Espera-se que os 11 partidos políticos que, conforme noticiou o Estadão, fecharam questão contra o voto impresso, honrem seus eleitores e façam a sua parte. E evitem que o Exército brasileiro, de tantas glórias passadas, vire piada mundial por abrigar caçadores de renas voadoras.

Para saber mais

Mini-podcast com Carlos Eduardo Lins da Silva

Reportagem do Estadão sobre o general Braga Netto e o voto impresso

Reportagem do Estadão sobre o movimento dos partidos contra o voto impresso

Editorial do Estadão sobre as articulações do Congresso para derrubar o voto impresso

Artigo sobre primárias americanas e polarização

ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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