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As lições de Madiba

Obama lembrou Mandela e condenou o nacionalismo, a corrupção e o preconceito racial

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 05h00

Estou voltando da África do Sul, onde acompanhei as celebrações do centenário de nascimento de Nelson Mandela. O legado desse líder extraordinário foi contrastado, nos discursos e debates, com o momento deprimente vivido na política, não só na África do Sul, ou no continente africano, mas em grande parte do mundo.

Com exceção de alguns países – e eu citaria a França de Emmanuel Macron, a Alemanha de Angela Merkel, o Canadá de Justin Trudeau, a Colômbia de Juan Manuel Santos e a Argentina de Mauricio Macri, mais alguns poucos –, o mundo vive uma angustiante entressafra de líderes.

A própria África do Sul está convalescendo da terra arrasada ética, econômica e política deixada por Jacob Zuma, uma figura que será lembrada pela sua capacidade de fazer tudo errado, representante do que há de pior no populismo tribal e étnico, corrupto e clientelista.

Nesse cenário, discursou, no aniversário de Mandela, dia 17, o ex-presidente americano Barack Obama no estádio de críquete Wanderers, em Johannesburgo, para mais de 30 mil pessoas. Em uma aparição de imenso significado para o povo africano, o primeiro negro a presidir a nação mais rica e poderosa do mundo procurou extrair as lições desse momento trágico para a política, ao mesmo tempo em que levantava o moral de todos, apontando os desafios pela frente.

“Devemos enxergar na atual tendência de política reacionária que a luta por justiça nunca está verdadeiramente concluída”, disse Obama. “Então, temos de estar constantemente vigilantes e combater aqueles que tentam se elevar empurrando outros para baixo.”

No discurso de uma hora, o ex-presidente americano condenou a corrupção, o nacionalismo, a xenofobia e o preconceito racial. E tomou como modelo “Madiba”, nome do clã de Mandela, pelo qual ele é conhecido dos sul-africanos. 

“Assumir nossa humanidade comum não significa que tenhamos de abandonar nossas identidades étnica, nacional e religiosa”, destacou Obama. “Madiba nunca deixou de ter orgulho de sua herança tribal, de ser negro e sul-africano. Mas ele acreditava, como eu acredito, que se pode ter orgulho de sua herança sem criticar os que têm uma herança diferente.”

Efeito

Em seu conjunto, essas mensagens são extremamente atuais, para a África do Sul pós-apartheid, para a África pós-colonização e para o mundo refém do radicalismo de direita e de esquerda. 

Vou à África do Sul desde 2002. Essa foi a minha quarta vez. Claro que neste período surgiu uma geração de empresários, profissionais liberais e servidores públicos negros que não existia no apartheid. 

Isso teve o custo da alienação dos brancos, muitos dos quais emigraram; da proliferação da corrupção, já que os espaços foram abertos menos pela competitividade do que pelo compadrio; e do atropelo da meritocracia.

Mesmo diante desse alto custo, a escala dessa inclusão racial ainda é muito pequena. Continuei vendo as mesmas cenas de trabalhadores negros subindo nas carrocerias das caminhonetes para ir e voltar do trabalho. No apartheid, não havia transporte público, porque os negros eram proibidos de se deslocar e os brancos tinham carros. 

Os empresários que não dependem de contratos públicos, como os que exploram o turismo, continuam sendo brancos, assim como seus gerentes, enquanto os empregados de nível mais baixo são todos negros. É claro que isso não muda da noite para o dia. O apartheid acabou oficialmente há pouco mais de duas décadas. 

Suas marcas ficarão ainda por muitos anos. Pense no Brasil: a Lei Áurea completou 130 anos em maio, e a cultura escravocrata continua viva, no preconceito contra as tarefas manuais e contra a pele escura. Da mesma forma, mais de dois séculos depois de seu florescimento, as ideias do Iluminismo ainda enfrentam, e talvez mais do que nunca, a irracionalidade, a desinformação e a manipulação, o obscurantismo medieval.

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