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As direitas no redemoinho de Bolsonaro

Para ser protagonistas, as direitas brasileiras têm de se afastar do presidente, que não é liberal nem conservador

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2021 | 03h00

Ser de direita no Brasil era como ser de esquerda na Polônia. Lá, a palavra “esquerda” lembra a ditadura comunista e a opressão da antiga União Soviética. Aqui, “direita” esteve associada, por muito tempo, à ditadura militar instaurada para combater uma ameaça socialista inexistente. Em nome desse objetivo, torturou, gastou sem responsabilidade fiscal e entregou aos civis uma economia com a doença da inflação. 

Na Polônia, ainda hoje, a disputa eleitoral se dá entre a direita e a extrema direita. No Brasil, até pouco tempo atrás, a política se organizava em torno de duas siglas nascidas à esquerda. Uma chefiada por um líder sindical e a outra por um professor universitário que, nos anos 1960, capitaneava um grupo de estudos sobre Karl Marx. Em 1978, o professor concorreu ao Senado com o apoio do líder sindical. Mais tarde, os dois se tornaram presidentes. 

As direitas sofreram para exorcizar a pecha autoritária. Nos anos 1990, organizaram-se em seminários sobre liberalismo. Durante o protagonismo de PT e PSDB, abrigaram-se em partidos “de suporte”, na definição do cientista político Carlos Pereira, colunista do Estadão e personagem do minipodcast da semana. Um artigo ainda inédito redigido por ele, Samuel Pessoa e Frederico Bertholini mostra como, em democracias multipartidárias, algumas siglas abrem mão do protagonismo para apoiar governos. Ganham em troca influência e cargos. 

Recentemente, as direitas democráticas decidiram trocar os bastidores pela ribalta – e uma de suas alas fundou, em 2011, o Partido Novo, uma sigla com programa, regimento e ambição de protagonismo. Neste momento, o Novo vive um dilema faustiano: apoiar ou não o presidente Jair Bolsonaro

Alguns filiados consideram que o Novo deve se tornar uma sigla “de suporte”, a reboque de Bolsonaro. Outra tendência acha que isso seria trair a própria razão de ser do partido. “Eleger Bolsonaro em 2018 foi um erro. Ele não cumpriu suas promessas e nada tem de liberal”, disse João Amoêdo, candidato a presidente nas últimas eleições, em entrevista à coluna. 

Amoêdo – que iria disputar novamente a Presidência em 2022, mas retirou a candidatura para não dividir ainda mais o partido – tem razão. Um governo que fustiga as instituições não pode ser chamado de “liberal”. É igualmente inapropriado classificá-lo como “conservador”. Conforme editorial do Estadão, o conservadorismo “defende o respeito às instituições democráticas e luta por sua estabilidade”. O editorial afirma que o presidente “viola esses princípios”, “tomando a coisa pública como se fosse privada e atacando os pilares da democracia”. 

Há outros polos à direita em busca de protagonismo. Como destacou Alberto Bombig em sua coluna, o PSD – que agora conta com o prefeito carioca Eduardo Paes e tem a perspectiva de incorporar Rodrigo Maia a seus quadros – pretende lançar candidato próprio em 2022. Tanto Paes quanto Maia deixaram o Democratas depois que o partido, na votação para a presidência da Câmara, foi tragado pelo redemoinho bolsonarista. 

Eis o dilema das direitas brasileiras. Para ser protagonistas, elas têm de se afastar de Bolsonaro, que não é liberal nem conservador. Pior: cultua o demônio que elas exorcizaram com tanto afinco, o passado ditatorial. Se não o fizerem, vão desaparecer na voragem de um presidente personalista – como a água que escorre em redemoinho para o ralo, depois que se desentope a pia. 

Para saber mais

Mini-podcast com Carlos Pereira

Editorial do Estadão sobre liberalismo e conservadorismo

Coluna de Alberto Bombig

Reportagem sobre as negociações de Rodrigo Maia com o PSD

Entrevista de João Amoedo ao Estadão

*ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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