As diferenças de ideias da substituta

Marina diverge de Campos em temas como economia, política de alianças e de meio ambiente; ela promete manter planos da aliança

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h03

O ex-governador Eduardo Campos e a ex-ministra Marina Silva vinham limando aos poucos as arestas políticas e ideológicas que separavam seus modelos de País. A morte do pernambucano na quarta-feira passada pôs fim a esse processo e agora, com Marina à cabeça da chapa - seu nome será oficializado nos próximos dias -, as diferenças podem voltar à tona.

Os dois divergiam sobre temas relevantes, que vão da macroeconomia à política, do meio ambiente a questões sociais. Falavam coisas diferentes sobre independência do Banco Central, mudança do fator previdenciário, Código Florestal, agronegócio, imposto sobre grandes fortunas, política de alianças partidárias, entre outros assuntos.

No caso do Banco Central, tanto Marina quanto Campos defendiam maior independência da instituição em relação ao governo. A diferença é que, enquanto ele queria aprovar uma lei capaz de cimentar a autonomia da autoridade monetária e torná-la invulnerável à troca de comando no Planalto, a ex-ministra dizia não ver necessidade da mudança legal. Segundo suas explicações, o BC desfrutou de independência no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso e na primeira parte do governo de Luiz Inácio Lula da Silva sem nenhuma lei especial.

Previdência. Campos sustentava que o fator previdenciário, criado na gestão FHC para desestimular aposentadorias precoces, devia ser extinto ou revisto (como desejam as centrais sindicais). Marina, por sua vez, já havia dito em 2010 que, se fosse eleita presidente e uma lei dessas chegasse às suas mãos, vetaria.

O fator previdenciário era uma das divergências que os dois procuravam minimizar em público. A equipe econômica que assessora Marina é favorável à austeridade fiscal, rígido controle dos gastos públicos e revalorização do tripé econômico que marcou a economia do País sobretudo entre 1998 e 2006 (aquele mesmo período com FHC e Lula): metas de inflação, câmbio flutuante e superávits fiscais fortes.

Campos também defendia publicamente a austeridade fiscal e o tripé. Mas tinha ainda um forte viés desenvolvimentista. Abriu espaço para grandes indústrias e grandes obras de infraestrutura em Pernambuco e seu discurso nem sempre combinava com o estilo sóbrio das falas sobre desenvolvimento sustentável da ex-ministra.

"Campos, até por traço de personalidade, fez um certo amálgama entre projetos sociais mais ousados, na direção do lulismo, e gestão econômica e administrativa mais conservadora, mais próximo do choque de gestão do tucano Antonio Anastasia em Minas ", observa o cientista político Rudá Ricci.

Agronegócio. Ainda em Pernambuco, Campos manteve uma política firme de estimulo ao agronegócio e bom relacionamento com usineiros e pecuaristas. Segundo Jaime Amorim, coordenador do Movimento dos Sem Terra no Estado, ele também se dava bem com pequenos agricultores. "Não via contradição entre o modelo agroexportador e um projeto de inclusão dos camponeses produtores de alimentos e a reforma agrária. Servia bem ao agronegócio e realizava políticas públicas para a agricultura familiar."

Marina sempre teve atritos com o agronegócio. Ela acredita que o setor poderia ser mais produtivo e menos agressivo para a biodiversidade. Já observou que enquanto no País se produz uma cabeça de gado por hectare, na Argentina, são três.

Ao atender a um convite para uma sabatina na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), dias atrás, em Brasília, Campos fez questão de levar a tiracolo a candidata a vice, para amenizar tensões. Durante a sabatina, também foi cuidadoso, ao falar sobre o Código Florestal, aprovado em 2012 com o apoio da CNA. Disse que a preocupação de seu governo será por a lei em andamento.

Marina, que ouvia na primeira fileira do auditório, liderou um movimento de oposição à aprovação do código, que considera até hoje "um grave retrocesso".

Na avaliação de Juan Jensen, economista da Tendências Consultoria, as principais diferenças entre Campos e Marina nunca foram fortes no terreno da macroeconomia. "Eles divergiam em questões pontuais, como o agronegócio. O ex-governador fazia contrapeso na chapa, procurando um ponto de equilíbrio com a agenda verde de Marina."

No campo político, a diferença mais notável envolvia as alianças políticas e partidárias. Campos era um político pragmático. Elegeu-se governador em 2006 com o apoio de 17 partidos e políticos tradicionais que não tinham nada a ver com a renovação política que defendia. Marina, por sua vez, sempre impôs restrições às alianças. "Campos era um homem de diálogos mais amplos e não tinha as demarcações ideológicas plantadas por Marina", diz o sociólogo Aldo Fornazieri.

Em seu acordo com o PSB, a ex-ministra prometeu não desrespeitar o programa de Campos. A campanha colocará à prova a promessa.

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