Arquivo/Estadão
Cúpula. O general D"Ávila Melo (3.º da esquerda para a direita), que chefiou o 2.º Exército Arquivo/Estadão

As confissões do DOI-CODI

Agentes do órgão criado pelos militares em 1969 para combater a esquerda contam como eles agiram até 1991; aqui, eles revelam a sentença de morte que destruiu o grupo guerrilheiro Molipo

MARCELO GODOY, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2014 | 02h01

Houve um momento em 1971, durante o regime militar, em que a repressão do Destacamento de Operações de Informações (DOI) de São Paulo aos militantes de grupos de esquerda no País mudou de qualidade. O cotidiano de violência e morte foi disciplinado. Produziram-se regras sobre quem devia apanhar, quem devia bater, quem devia viver, quem devia morrer. Tudo com o conhecimento do comando. Essa história agora é contada pelos próprios agentes que trabalharam no DOI - e está no livro A Casa da Vovó.

"Tinha um critério: foi preso, fez curso (de guerrilha) em Cuba ou na China ou na Argélia... Era na rua mesmo", revelou o tenente Chico, que trabalhou 20 anos no DOI. A ordem de matar os presos que tivessem treinamento de guerrilha no exterior se estendia às pessoas que, banidas do território nacional, voltassem clandestinas ao Brasil. "O banido era para morrer rápido. Já não existia. Tinha de morrer mesmo", contou a tenente Neuza, que esteve no destacamento de 1970 a 1975.

Inaugurado em 1969, o órgão recebeu primeiro o nome de Operação Bandeirante (Oban) - tornou-se DOI em 1970. Era uma associação entre militares e policiais sob mando do Exército que permitiu ao governo esmagar os grupos que pegaram em armas contra o regime. Sua estratégia se baseava na Doutrina da Guerra Revolucionária, formulada por militares franceses nos anos 1950 para combater a insurgência que buscava a independência da Argélia, então parte da França.

Durante dez anos, agentes do DOI paulista, que serviu de modelo para outros no País, contaram o que sabiam. Homens e mulheres que trabalharam na chamada Casa da Vovó, como eles se referiam ao destacamento, revelaram que a sentença de morte que atingiu guerrilheiros no Araguaia e na Casa da Morte em Petrópolis, no Rio, também existiu em São Paulo. Ela atingiu organizações armadas, como o Movimento de Libertação Popular (Molipo) e a Ação Libertadora Nacional (ALN) e grupos que defendiam a luta democrática, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Foi essa sentença, dizem, que se abateu sobre o guerrilheiro Ayrton Adalberto Mortati, o Tenente, do Molipo. Em outubro de 1971, os agentes da equipe Cúria, da Seção de Investigações do DOI, começaram uma vigilância diária em uma casa na zona leste de São Paulo. "Era um aparelho na Vila Prudente. A gente sabia que tinham uns 'cubanos' (guerrilheiros formados em Cuba) lá dentro", contou o agente Alemão, no DOI de 1970 a 1975.

Mortati foi vigiado até 4 de novembro. Naquele dia, Alemão notou o desaparecimento do Fusca dos ocupantes da casa - eram dois homens e uma mulher. O veículo costumava ficar na rua. Os agentes informaram aos chefes e receberam a ordem: pegar todo mundo.

Alemão e seu companheiro, o delegado Cyrino Francisco de Paula Filho, viram Mortati deixar a casa e o seguiram. Acompanharam o guerrilheiro até a Avenida Paes de Barros, onde viram o Fusca dos guerrilheiros. Quando ele se preparava para entrar no veículo, Alemão e Cyrino o detiveram. Mortati foi entregue ao capitão Ênio Pimentel da Silveira, o Doutor Ney, chefe da Investigação, e se tornou um dos desaparecidos do regime.

Viajou. O Exército nunca admitiu sua prisão. "Ele viajou", contou Alemão. "Viajar" é como os agentes se referem à execução. "O Mortati morreu. Lembro que a gente tinha uma pasta no Interrogatório onde constava o nome dele como morto", contou Chico. Na casa da Rua Cervantes, outro "cubano" - José Roberto Arantes - foi cercado e morto pelos militares. Maria Augusta Thomaz, a guerrilheira que morava no imóvel, estava fora quando tudo ocorreu.

Além de Mortati, dois guerrilheiros do Molipo foram capturados e mortos nos dias subsequentes: Flávio de Carvalho Molina e Francisco José de Oliveira. Depois de balear Oliveira, os agentes contam que o deixaram sangrar até a morte. Frederico Mayr e Antonio Benetazzo também foram executados depois de presos em 1972.

No relato dos agentes, Lauriberto José Reyes, Alexander José Ibsen Voerões e João Carlos Cavalcanti Reis morreram em emboscadas. Reyes e Voerões iam se encontrar com uma guerrilheira que havia sido detida e torturada pelo DOI. Reis foi vítima da ação do mesmo informante que entregou Benetazzo. O traidor - segundo os agentes - era um dos guerrilheiros formados em Cuba. O homem era controlado pelo capitão Freddie Perdigão Pereira, o Doutor Flávio, subchefe da Seção de Investigação. Era conhecido como Camilo.

Todos os mortos haviam feito curso em Cuba e pertenciam ao Molipo. O grupo nascera de uma cisão da ALN. Seu comando foi esfacelado entre 1971 e 1973 em operações do DOI paulista. A última ocorreu em 17 de maio de 1973, em Rio Verde, Goias. "Nós estávamos com o CIE (Centro de Informações do Exército)", contou o agente Jonas, um cabo do Exército.

Ali morreram e desapareceram Márcio Beck Machado e Maria Augusta, a moça que escapara ao cerco na Rua Cervantes. A estratégia de morte e desaparecimento se manteria no DOI até o general Ednardo D'Ávila Melo ser removido do comando do 2.º Exército (São Paulo), em 1976.

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Condecorada faria de novo

Neuza vive seus dias se lembrando dos colegas. Artoni morreu. Sá morreu. "E o doutor Ney meteu uma bala na própria cabeça." Solteira, a tenente está quase cega. A mais importante agente do DOI de São Paulo nasceu em 1936. Foi uma das duas mulheres do destacamento condecoradas pelo Exército com a Medalha do Pacificador.

O tenente e seu fantasma

Um dia Chico decidiu contar uma história diferente. Arredio nas primeiras entrevistas, o agente do DOI resolveu falar de um fantasma. Não de qualquer um, mas do seu. "Eu abria a porta do armário de casa, e ele estava lá." Homem forte e bem articulado, o agente começou a se explicar. "Você não tem ideia do que é passar a noite inteira vendo um homem sabendo que no dia seguinte ele vai morrer."

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

07 de dezembro de 2014 | 09h54

O oficial estava diante de Antonio Benetazzo, militante do Molipo, preso em 27 de outubro de 1972. Não o torturaram. "Não era preciso." O guerrilheiro respondeu a algumas perguntas. Queriam informações sobre o mimeógrafo que escondia. "A gente sabia que ele ia ser levado para 'viajar' (ser executado)." Benetazzo estudara filosofia na Universidade de São Paulo (USP) nos anos 1960 e era responsável pela impressão do jornal clandestino Imprensa Popular. "Ele tinha uma cara de resignação, parecia saber o que ia acontecer."

O homem treinara guerrilha em Cuba e voltara ao País em 1971. Passou aquela noite em silêncio. "Fiquei ali olhando o rosto do cara." Pela manhã, os homens da Seção de Investigação vieram apanhar o preso. "Era uma barbaridade." Com o tempo, a imagem do guerrilheiro passou a assombrá-lo. "Cada um tem seu fantasma, cada um teve a sua participação, que não escolheu, não programou, não o beneficiou em nada, não fez parte de um projeto individual. Você estava numa guerra, e a guerra era essa."

Benetazzo entrou no Fusca. Os agentes Pedro Aldeia, Habib, Melancia e Alemão levaram o preso. Foram cumprir a sentença que mandava matar todo aquele que tivesse feito curso em Cuba. E assim fizeram, contou Chico, revelando o que era um segredo: esmagaram sua cabeça a pedradas.

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'Fizemos um acidente: caiu, quebrou a cabeça'

Erasmo Dias, ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo de 1974 a 1978, revelou detalhes de como ajudou a fraudar a perícia da chamada Chacina da Lapa, a morte de três integrantes do Comitê Central do PC do B, em dezembro de 1976. Fazia menos de um ano que o general Dilermando Gomes Monteiro assumira o comando do 2.º Exército em São Paulo. Tinha a ordem de evitar novas mortes no DOI, como a do jornalista Vladimir Herzog. Mas um dos presos do PC do B, João Baptista Franco Drummond, acabou morrendo no destacamento. Erasmo conta como fez para que ele "morresse" na Avenida 9 de Julho, simulando um atropelamento:

Neutralizar inimigos era a finalidade da ditadura

Militares descrevem como era o interrogatório e dizem que DOI não queria esclarecer crimes, mas obter informações sobre grupos e pessoas

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2014 | 02h01

A tortura no DOI tinha regras. Só os integrantes da Seção de Interrogatório podiam submeter um preso ao pau, ao choque elétrico, aos murros, enforcamentos, afogamentos e palmatórias na sede do órgão, na Rua Tutoia, no Paraíso, zona sul de São Paulo. O objetivo não era obter a confissão de crimes, como se faz em uma delegacia de polícia, O órgão obedecia a uma estratégia militar. Não era o passado que interessava, mas o presente. O que se queria eram informações sobre as organizações que levassem à captura de outros opositores, ao desmantelamento de suas estruturas, enfim, buscava-se a neutralização do inimigo.

"Dizer que passou lá e não falou está mentindo ou era mudo. O Monir (guerrilheiro da ALN) não podia falar, então escrevia. A dor é o limite do homem", contou o tenente Chico. Para o agente, entre o torturador e o preso - chamado de cliente pelos homens da Seção de Interrogatório do DOI - era travada uma luta de inteligência. "O interrogador era apoiado pelo analista. O preso logo aprendia que não podia mentir. Ele podia omitir, mas, quando mentia, vinha a pressão no dia seguinte."

Depois que Carlos Alberto Brilhante Ustra assumiu o órgão em 1970, aos poucos pôs-se ordem na atividade. Só entravam na seção pessoas autorizadas. Despia-se, batia-se, dava-se choques no preso, mas não se podia deixá-lo estropiado, contam os agentes, de tal forma que ele não pudesse levar os militares até o ponto de encontro que tivesse marcado com a organização ou a um aparelho - os imóveis mantidos por sua organização. "Você já viu o pau de arara em ação? O diabo não passa perto do pau de arara. Com certeza ele respeita e tem medo", afirmou Chico.

Os agentes que trabalhavam na seção tinham uma ordem - executar os detidos caso houvesse uma tentativa de resgate na sede do quartel. Havia momentos em que o número de presos era tão grande que faltavam torturadores para tantas pessoas. "Havia muito mito quanto ao que se fazia com o preso. Não tinha estupro. Punha-se a mulher nua, dava choque, mas estuprar jamais. Se o Ustra soubesse de algo semelhante, ele ferrava bem", disse Chico.

Nem sempre as regras eram cumpridas. "Eles batiam demais. Batiam em mulher que a gente tinha de levar no braço para apontar um aparelho. Matou-se muita gente no pau, dependurada. Nas mulheres, eles davam choques. Era um sofrimento da porra", contou o agente Nelson, que trabalhou de 1969 a 1977 no DOI e era chamado de Pai-Velho.

Terminada a sessão de pau, os homens da equipe auxiliar datilografavam os depoimentos, chamados de "interrogatório preliminar". Cada vez que o depoimento do preso era retomado, anotava-se a equipe responsável pelo novo interrogatório e o que o preso acrescentara às declarações anteriores. Qualquer informação operacional importante não parava no interrogatório preliminar. Não há neles, por exemplo, informações sobre pontos - os encontros marcados pelos militantes.

"Essas informações não eram incluídas no interrogatório, até porque esse documento não era secreto", explicou o tenente Chico. Feito em seis vias, o interrogatório preliminar era enviado a vários órgãos. O DOI usava as informações para desarticular as organizações. Quando o preso não mais lhe interessava, ele era enviado com o seu dossiê ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que fazia o inquérito. O processo servia para tirar o preso de circulação, colocá-lo na cadeia.

"O objetivo era identificar, neutralizar e eliminar. Essa era a função. O processo e o inquérito do Dops eram para guardar o cara depois em algum lugar", disse Chico. Em sua história, o DOI prendeu 2.541 pessoas e enfrentou 876 denúncias de tortura catalogadas pela Cúria Metropolitana de São Paulo.

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Livro identifica 139 dos integrantes do destacamento

O tenente Chico entrou no Clube dos Oficiais da Reserva da Polícia Militar e foi até a antessala do gabinete do seu então presidente, coronel Hermes Bittencourt Cruz, um ex-sargento do Exército que em 1963 participou da agitação dos praças no Rio antes de entrar para a PM paulista, no ano seguinte. Desconfiado, não quis dizer nem mesmo seu nome. Era setembro de 2004 e estava acompanhado por um coronel da PM que fez carreira no Serviço de Informações da corporação e o incentivara a falar. Começava ali a primeira de mais de duas dezenas de entrevistas com o mesmo homem. Sua memória se abriu aos poucos. Só na terceira entrevista Chico tomou coragem para dizer seu nome verdadeiro e se apresentar sem o coronel. Pediu, porém, anonimato. Por isso, aqui foi identificado por meio de um nome fictício: tenente Chico.

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