As bandeiras levantadas pelos candidatos favoritos em SP

Passados três meses de campanha, postulantes se apegam a promessas que podem virar marca de gestão caso venham a comandar a capital

Adriana Carranca e Felipe Frazão, de O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2012 | 18h39

Após 87 dias de campanha oficial pela Prefeitura de São Paulo, os três principais candidatos deram aos eleitores pistas de como pretendem tocar suas eventuais gestões e quais seriam as prioridades. Planos de governo se tornaram tema da reta final da disputa eleitoral entre Celso Russomanno (PRB), Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB), mas aos eleitores ainda resta a dúvida: são propostas viáveis?

Sem documento pronto nem nome forte na coordenação das propostas, Russomanno virou alvo dos dois adversários mais próximos nas pesquisas. Serra chegou a dizer que o candidato do PRB teria "comprado" o plano de governo na internet, enquanto Haddad o classificou de "plano laranja". Petista e tucano também trocam farpas na TV e usam a propaganda para desconstruir a proposta do adversário.

A pedido da reportagem, especialistas em educação, saúde, segurança e transporte avaliaram os carros-chefe das campanhas, os projetos que tiveram mais destaque na propaganda, no discurso ou em algum documento. A percepção geral é de que são propostas vagas, imprecisas, mais voltadas a "agradar" aos eleitores e serem facilmente assimiladas do que a responder às demandas consideradas prioritárias de cada área. Há casos em que falta lastro orçamentário ou a proposta dificilmente poderá ser aplicada.

O líder nas pesquisas, por exemplo, dedicou bastante tempo para a segurança, responsabilidade que, embora seja do governo estadual, também é cobrada dos prefeitos pelos eleitores. Russomanno promete não só ampliar o efetivo da Guarda Civil Metropolitana para 20 mil homens - hoje são 6 mil - como colocar os agentes dentro das escolas. "Precisa ser feito um projeto-piloto. Sem qualificação dos guardas e apoio dos diretores, uma boa ideia pode virar um pesadelo", diz o pesquisador do Núcleo de Políticas Públicas da USP, Leandro Piquet Carneiro.

Para Piquet, os guardas podem ter novas funções, como fiscalizar o cumprimento de leis municipais, atender emergências não criminais como perturbação de sossego, mas de forma complementar e integrada às Polícias Civil e Militar. Mas isso depende de qualificação e treinamento adequados. "A capacidade máxima que a Prefeitura tem hoje de formar, com razoável qualidade, são mil homens; 20 mil em quatro anos nem a PM consegue. É impraticável", diz o ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente da Silva.

Especialistas em transportes também veem com ressalvas a principal proposta de Haddad para a área, o Bilhete Único Mensal, que custaria R$ 400 milhões em subsídios às empresas de ônibus e cooperativas. "São mais subsídios para um sistema ineficiente, caro, que opera com baixíssima velocidade. Tem que investir em melhorias. Se dobrar a velocidade, o ônibus faz mais viagens, atrai mais passageiros, e a tarifa cai", diz o engenheiro Sérgio Ejzemberg, mestre em transporte pela Poli-USP. "Do jeito que está, ônibus nem de graça!"

O consultor de transportes Horácio Augusto Figueira faz a mesma avaliação. Ambos indicam que o foco deve ser a expansão de corredores e faixas exclusivas para ônibus expressos e semiexpressos, integrados a estações de metrô. Nos cálculos de Figueira, seriam necessários pelo menos 400 quilômetros de corredores. O plano de Haddad prevê a construção de 150 km de corredores e 150 km de faixas exclusivas. E não traz custos.

Outra marca do petista é a Rede Hora Certa, que prevê "um centro de saúde por subprefeitura". "A impressão é que eles pegam o que a população aponta como maior problema e inventam um nome para aquela solução pontual", diz o especialista em Saúde Pública pela USP Mário Scheffer. Segundo ele, o principal problema do sistema, não discutido pelos candidatos, é como melhorar a gestão dos equipamentos existentes, administrados por Estado, Prefeitura e organizações sociais. "Estado e município precisam trabalhar juntos", diz o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina.

Demanda.Embora o ensino técnico seja uma demanda da população, sua expansão, proposta por Serra, não é vista por especialistas como prioridade para a Prefeitura. O tucano quer criar uma rede municipal complementar à do Centro Paula Souza, do Estado, e levar cursos profissionalizadas às escolas e CEUs.

"O ensino técnico é responsabilidade do Estado, que tem experiência nisso. À Prefeitura cabe o ensino fundamental e infantil", diz o professor da Escola de Educação da USP Ocimar Alavarse. "O foco do investimento municipal não deve ser esse, e sim melhorar o ensino fundamental com atividades apropriadas à idade dos alunos", defende a professora Ângela Soligo, da Faculdade de Educação da Unicamp.

O uso de períodos ociosos nas escolas, como o noturno, seria positivo, acreditam, desde que os cursos sejam para jovens e adultos e a cargo do Estado. "Não faz sentido adicionar mais uma atribuição ao município se temos um déficit enorme na educação infantil", diz Alavarse.

Apesar do aumento na oferta de creches, a demanda hoje é de cerca de 150 mil vagas. Serra promete construir unidades próximas às estações de metrô, mas sem precisar o custo da medida.

Russomanno propõe acabar com o déficit construindo um andar a mais nas unidades existentes. A viabilidade da proposta implicaria estudo prévio arquitetônico em cada unidade, observam especialistas.

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