Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Árvore da República morre, mas outras marcas estão vivas em Rio Claro

Na cidade do interior paulista, também viveram importantes do movimento republicano

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

RIO CLARO – Em Rio Claro, outra cidade do interior paulista, também viveram personagens importantes do movimento republicano, como José Alves de Cerqueira César, Alfredo Ellis, Cândido Valle e Campos Sales. Com o fim da Monarquia, a Praça Matriz da cidade foi rebatizada de Praça da Liberdade e nela foi plantada, exatamente um mês após a proclamação, a Árvore da República. Mas ela está seca. “Não deixa de ser simbólico, pois nossa República, aos 130 anos, também precisa ser revigorada”, afirma o jornalista e pesquisador José Roberto Sant’Ana. A prefeitura informou que vai plantar outra árvore da mesma espécie no local. 

Da família de Cerqueira César, poucos vestígios restam na cidade. O clube Philarmônica Rioclarense, fundado em 1879, do qual o republicano foi o primeiro presidente, resiste. Mas o prédio clássico da época deu lugar a outro ‘modernoso’. Lá, os cafeicultores se reuniam para tramar contra o imperador, afirma o pesquisador. “Era o clube mais luxuoso, frequentado pela elite da época, os fazendeiros do café e suas filhas, médicos e profissionais liberais. Era um clube republicano”, diz Sant’Ana.

Outro marco do período, o Teatro Fênix teve o prédio ocupado por um conjunto de lojas. Ali se deu o lançamento do Partido Republicano de Rio Claro, simultaneamente com o do Rio de Janeiro. “Com o grande prestígio que tinha na região, Cerqueira César conseguiu reunir 200 republicanos para lançar o manifesto do partido. O futuro presidente Campos Sales estava presente”, afirma.

Na praça, estão os bustos de Siqueira Campos, outro rio-clarense famoso, e do médico republicano Alfredo Ellis. Na base, uma placa informa que Ellis foi pioneiro na libertação dos escravos e propagandista republicano. Ele se formou em medicina nos Estados Unidos e, em 1874, junto com seu sogro e tio, coronel Francisco da Cunha Bueno, abriu a fazenda Santa Eudóxia, a maior produtora de café do Brasil na época.

Em 1890, já na República, Ellis foi eleito deputado federal para a Câmara Constituinte pelo Partido Republicano Paulista. Anos mais tarde se tornaria senador. O episódio marcante na vida desse republicano foi imortalizado no monumento erguido na Praça da Liberdade, em frente ao atual prédio do Fórum. “Em 1891, quando o Congresso foi fechado pelo Marechal Deodoro, teve início em Rio Claro um levante que almejava simplesmente derrubar o presidente e tomar o poder. Os republicanos daqui se sentiam traídos por Deodoro que, na opinião deles, se tornara um tirano”, relembra Sant’Ana.

Uma inscrição, com a grafia da época, no granito da base do busto de Ellis faz referência ao acontecimento: “Foi neste logar que no dia 13 de Dezembro de 1891, os republicanos Rio clarenses arriscarao suas vidas para restabellecer a Constituição da República violada a 3 de Novembro de 1891”. Em duas faces do pedestal se lê: “Tudo pela República”. O levante (que também aconteceu na capital federal) resultou na deposição de Deodoro, sucedido na presidência por Floriano Peixoto. Em São Paulo, com a queda do governador Américo Brasiliense, seu vice, o republicano Cerqueira César, assumiu o governo. 

Em quase 20 anos de atuação como advogado em Rio Claro, Cerqueira César se converteu em importante liderança regional. Foi vereador por três mandatos a partir de 1870 e construiu o alicerce para se tornar depois uma liderança nacional. Ao lado de Prudente de Morais, de Itu, e de Campos Sales, de Campinas, teve papel decisivo no movimento pelo fim da Monarquia no Brasil.

Advogado pela Faculdade do Largo de São Francisco, turma de 1860, ele montou escritório em Rio Claro e iniciou sua trajetória política naquele ano. Logo o progresso começava a acontecer com a chegada dos imigrantes. “Apesar de os ideais republicanos terem sido cogitados no Rio de Janeiro desde a Independência, e antes disso no Nordeste, sua consolidação política e econômica é originária do interior de São Paulo. Aqui estavam os fazendeiros que sustentavam a economia nacional e queriam direcionar os destinos do País”, afirma o pesquisador.

Sob a liderança de Cerqueira César, Rio Claro foi a primeira cidade do País a ter maioria republicana na Câmara Municipal. “Ele era um político hábil e admirado pela população. Quando decidiu se mudar para a capital, em 1880, os rio-clarenses fizeram um abaixo-assinado na tentativa de demovê-lo”, diz. Cerqueira César foi presidente da loja maçônica Fraternidade III, que mantinha hospital para atendimento das vítimas da epidemia de varíola que assolou a cidade. Ele também presidiu a OAB local.

Sant’Ana conta que Rio Claro também teve grandes monarquistas e a cidade era prestigiada pelo imperador Pedro II. “O monarca esteve aqui duas vezes no auge da ebulição do movimento republicano. Na primeira, em 1878, trazia na comitiva nomes importantes do Império e foi recebido pelos governantes da cidade, Cerqueira César e Joaquim Teixeira das Neves.” O imperador se hospedou no casarão de José Estanislau de Oliveira, o visconde de Rio Claro, no centro, que permanece conservado e abriga a pasta municipal da Cultura.

 MUSEU HISTÓRICO AMADOR BUENO DE VEIGA

Avenida 2, no. 572, centro, Rio Claro. F.: 19-3532.4090.

Aberto de terça a sexta, das 9h às 17h; sábados e domingos das 9 às 13 horas.

Entrada gratuita.

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