Fabrice Coffrini/AFP - 22/1/2018
Fabrice Coffrini/AFP - 22/1/2018

Artigo: Em defesa das elites

Neste ano, o Fórum Econômico Mundial, mais que de costume, provocou uma inflamada onda de ataques às elites, que se tornaram o alvo favorito tanto da direita quanto da esquerda

Fareed Zakaria – The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2019 | 05h00

Neste ano, o Fórum Econômico Mundial, mais que de costume, provocou uma inflamada onda de ataques às elites, que se tornaram o alvo favorito tanto da direita quanto da esquerda. De um lado, o presidente Trump e os comentaristas da Fox News fustigam o inatingível establishment que, segundo eles, conduz os destinos do mundo; de outro, os esquerdistas malham os milionários e bilionários que, na frase de um autor esquerdista, “quebraram o mundo moderno”.

Costurando essas críticas gêmeas está uma sombria visão da vida contemporânea – tida como disruptora da ordem global, culpada pela estagnação da renda, geradora de insegurança e responsável pela degradação ambiental. Mas, essa avaliação é verdadeira? Será que erramos tanto que é preciso trazer de volta a guilhotina?

Olhando-se pelo parâmetro mais simples e mais importante, o da renda, na verdade estamos vivendo um progresso espantoso. Desde os anos 1990, mais de 1 bilhão de pessoas saíram da pobreza extrema. A faixa da população que ainda vive nessa condição degradante caiu de 36% para 10%, a mais baixa que a história registra. Trata-se, segundo o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, “de uma das maiores conquistas de nossa época”. A desigualdade, de uma perspectiva global, declinou inacreditavelmente.

E tudo isso ocorreu principalmente porque os países – da China à Índia e à Etiópia – adotaram mais políticas favoráveis ao mercado, com os países ocidentais abrindo-lhes acesso a seus mercados, aumentando a ajuda humanitária a eles destinada e perdoando suas dívidas. Em outras palavras, com políticas apoiadas pelas elites.

De uma perspectiva global, sob qualquer medida que se examine os números são impactantes. Dos anos 1990 para cá, a mortalidade infantil caiu 58%, a subnutrição, 41%, e a morte de mães ao darem à luz, 43%.

Sei qual será a resposta que alguns vão dar diante dessas estatísticas. Dirão que os números referem-se ao mundo em geral, não aos Estados Unidos. Que as coisas podem ter melhorado para os chineses, mas não para os necessitados dos países ricos. Essa sensação de “injustiça” é o que seguramente vem alimentando a primeira agenda do governo Trump e grande parte da raiva que a direita tem do sistema internacional (o mais assombroso é que a esquerda, cujas preocupações são tradicionalmente voltadas para os mais pobres entre os pobres, tenha se tornado crítica de um processo que melhorou a vida de pelo menos 1 bilhão de pessoas das mais empobrecidas do mundo).

Ao se discutir a atual situação, é comum ouvirem-se as queixas de nostálgicos da velha ordem, a que existia no mundo antes que as atuais elites “quebrassem” esse mundo. Mas, quando foi mesmo essa idade de ouro? Teria sido nos anos 1950, quando as leis de Jim Crow (que institucionalizaram a segregação racial) reinavam nos Estados Unidos e as mulheres quase só podiam trabalhar como costureiras ou secretárias? Ou nos 1980, quando dois terços do globo estavam estagnados sob o socialismo estatal, a repressão e o isolamento? Que elites – reis, comissários, mandarins – conduziram o mundo melhor que nossos atuais (e muitas vezes confusos) políticos e empresários?

Mesmo no Ocidente, é fácil observar o estonteante progresso. Vivemos mais, o ar e a água estão mais puros, a criminalidade caiu e a informação e as comunicações são virtualmente livres. Também houve ganhos econômicos, embora, o que é crucial, não tenham sido distribuídos igualitariamente. Houve, porém, melhoras monumentais em acesso e oportunidades para grandes segmentos da população que estavam marginalizados ou excluídos.

Nos Estados Unidos, a distância entre negros e brancos no ensino básico quase desapareceu. O abismo da pobreza entre negros e brancos encolheu (embora continue angustiantemente grande). O ingresso de hispânicos em faculdades cresceu exponencialmente. A diferença salarial entre homens e mulheres está menor. O número de mulheres na presidência das 500 maiores empresas da lista Fortune cresceu para 24 nos últimos 20 anos.

A participação de mulheres nas legislaturas nacionais de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) quase dobrou no mesmo período. Há duas décadas, nenhum país permitia casamentos entre pessoas do mesmo sexo; hoje, mais de 20 países permitem. Ainda há muito a ser feito em todas essas áreas, mas houve progressos impressionantes em cada uma delas.

Compreendemos que segmentos importantes da classe trabalhadora ocidental estejam sob grande pressão e se sintam ignorados e deixados para trás por esse progresso. Temos de encontrar meios de dar a eles maior apoio econômico e dignidade moral. Mas pesquisas mostram que parte desse desconforto vem das comparações que ocorrem no interior de uma sociedade na qual esses e outros grupos gozavam de um status confortável.  

Após 400 anos de escravidão, segregação e discriminação nos Estados Unidos, os negros vêm ascendendo. Após milhares de anos sendo tratadas como estruturalmente subordinadas, as mulheres estão conquistando igualdade genuína. Os gays, antes considerados marginais ou depravados, finalmente podem viver e amar livremente em muitos países. O fato de essas mudanças causarem desconforto em alguns não é razão para que sejam interrompidas, nem para que nos esqueçamos de que elas representam um profundo e duradouro progresso que deve ser comemorado. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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