Gabriel Lordello/Estadão
Gabriel Lordello/Estadão

Artigo: Bolsonaro e a cegueira branca

Como na literatura, começamos a nos esbarrar na busca pela sobrevivência. Uma cegueira viral, que parece ser personificada no chefe do Executivo

Felipe Rigoni*, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 13h31

Quando desci do avião no aeroporto de Vitória pela última vez antes de entrar em isolamento, senti que começava a viver uma história familiar. Uma década atrás, conheci Ensaio Sobre a Cegueira, obra do aclamado escritor português José Saramago. Como lutei durante toda a infância contra a perda de visão – que só veio em definitivo aos 15 anos, após dezenas de cirurgias nos olhos –, a metáfora fez sentido para mim. Só não esperava repeti-la mais uma vez, agora com uma pandemia real.

No livro, uma cegueira branca, repentina, começa a infectar as pessoas. Evoluindo exponencialmente, a doença chega a todas as pessoas daquele mundo fictício. Como contavam com a visão para fazer tudo em suas vidas, não conseguiram nem sequer sair de casa. Não havia quem os guiasse pelo caminho. Rapidamente, o desespero se instala, o alimento acaba e, mesmo cegos, todos foram forçados a sair de suas casas e lutar pela própria sobrevivência.

Lá fora, encontraram outros desesperados, que tampouco sabiam para onde ir. Os primeiros a achar comida se apressavam para pegar o máximo que podiam e voltar para casa. Não encontrando o caminho, esbarravam naqueles que tentavam fazer o mesmo. Em pouco tempo, a pacífica sociedade deu lugar a um mundo de desespero, dividido entre dominantes e dominados. O caos se instala na medida em que a sociedade perde o senso de coletividade.

A cegueira que Saramago descreve em seu livro não é a física, com a qual convivo há 13 anos. É aquela em que, ante ao desconhecido, te impede de seguir em frente; ao perceber a ameaça, não permite ver no outro um amigo; ao menor sinal de desespero, torna impossível a colaboração mútua. Neste desconhecido mundo de isolamento social, a ameaça de uma pandemia e o medo de não saber como serão nossas vidas daqui para frente começam a nos cegar.

Queremos muito voltar à normalidade, mas muitos não percebem que fazê-lo custaria milhares de vidas. Precisamos nos isolar, mas ainda há quem não compreenda que milhões de trabalhadores precisam de ajuda financeira para conseguir ficar em casa. E que os programas do governo federal anunciados até aqui são insuficientes. Como na literatura, começamos a nos esbarrar na busca pela sobrevivência. Uma cegueira viral, que parece ser personificada no chefe do Executivo. Uma cegueira que pode nos levar ao caos.

O Legislativo brasileiro tenta continuar enxergando. Cientes da necessidade de garantir que as pessoas mais vulneráveis tenham o que comer durante esse período, aprovamos a renda mínima emergencial no Congresso. Como as empresas não terão caixa para se manter de pé ao longo desse período, em razão da frustração de receitas, seguimos lutando pela aprovação de medidas para proteção ao emprego, como linhas de financiamento e cancelamento temporário de tributos federais.

Vivemos uma corrida contra o tempo. Temos o enorme desafio de implementar medidas que financiem o sistema público de saúde, garantindo a compra dos equipamentos necessários para o tratamento dos brasileiros e a realização de pesquisas sobre a covid-19. Enquanto isso, Estados e municípios, que já estavam quebrados antes da pandemia, precisam de ajuda para arcar com custos simples, como a proteção dos profissionais de saúde.  São ações urgentes, que devem sair do papel nas próximas semanas, antes que o vírus atinja seu pico de contaminação no Brasil.

Todo esse esforço, porém, corre o risco de não surtir o efeito necessário caso a cegueira de Bolsonaro persista. Insistindo numa solução de isolamento vertical – que só será possível quando testarmos milhões de pessoas –, o presidente induz a população a sair de casa, colocando em risco não apenas a saúde, mas também a economia, suposto alvo de suas ações.

Atacando qualquer agente político que arrisque ter mais aprovação e protagonismo que ele, Bolsonaro perde a oportunidade de ser o grande coordenador do esforço contra o coronavírus. Ao negar a gravidade da pandemia e atrapalhar seus ministérios na elaboração de respostas rápidas, o presidente coloca o País sob risco grave de ruptura social, mesmo com todo o esforço do próprio Ministério da Saúde. Sua cegueira emana do Palácio do Planalto e parece ter a capacidade de fazer ruir todo o trabalho coletivo para superação da crise.

Precisamos de visão. Visão que não enxerga a luz, mas a ciência. Visão representada pelos pesquisadores, médicos e enfermeiros que atuam na linha de frente, expondo as próprias vidas pelo bem do outro; pelos técnicos da Saúde, que, apesar da cegueira do presidente, seguem conduzindo o País pelo caminho correto, minimizando afirmações populistas sem base científica. Visão representada pela rede de solidariedade dos brasileiros, que cresce a cada dia, na batalha pela garantia do mínimo de dignidade aos mais vulneráveis. 

Esta é a visão que nos mostrará que ninguém se salva só. E que o único caminho para vivermos neste novo mundo passa pelo diálogo e pela ciência.

*Felipe Rigoni é mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford, cofundador do Movimento Acredito e deputado federal eleito pelo Espírito Santo



 

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